domingo, outubro 27, 2013

ária para brasas e berlotas

eu cismava sozinho
quando ela passou
viciante como crack
feito incêndio de napalm
trajava sorriso sorrateiro
saia de musa gitana
piercing no lábio inferior
sandálias de couro
numa alquimia de woodstock
pensei em gritar um poema
um troço qualquer
mas ela esvoaçou
intransponível
e me deixou com
essa ventania nos olhos
que não cansa de cegar

sexta-feira, outubro 25, 2013

dentro de mim passa um rio que não se esquece

não faço escolhas
cumpro desígnios
e as palavras
não me absolvem

quinta-feira, outubro 24, 2013

canção para o registro do vento

deitei teu seio
na infância
dos meus olhos

feitiço ou aflição muda

toda dor no silêncio
é mais aguda

para bom entendedor dois versos se bastam

a dor que me povoa os passos galantes
lembram Leminski e o poema elegante

terça-feira, outubro 22, 2013

ária para apascentar holocaustos

ela olhava para o meu silêncio
e eu era todo solidão

segunda-feira, outubro 21, 2013

do soneto & da emenda

do soneto & da emenda

nunca sei de ti, nunca
mas caminhas em perdição
nas minhas palavras


do soneto & da emenda II

quase fui atropelado
por um verso
que não cabia no poema

domingo, outubro 20, 2013

Jogral para as barbas de walt whitman

fosses flor
caminho
ou pedra

ainda assim
não saberia
teu significado

mas ávido
desejo-te
como o ar

tão pleno
de vazio

e ausência

sexta-feira, outubro 18, 2013

Poema de delicados gumes

Queria ousar espelhos
Transitar no inóspito
Mar que são teus olhos

Queria velar espelhos
Transitar no áspero
Ar que tu me salivas


(Eu singro arrepios)

quarta-feira, outubro 09, 2013

Poeminha para um diálogo com a Adriana Aleixo

Da fruta furiosa em néctar

Não há segredo na saliva
Nem tudo que ela incita
Olor em viço que transita

Assis Freitas

********************

Âmago de Flor

Eu moraria em seus lábios
feito céu
açúcar e sol.

Adriana Aleixo

poeminha para um diálogo com o Domingos

A prosa espúria do homem só

De todos os poemas que escrevi
Nenhum me servirá de arremate
Ainda espero o amor que me mate

Assis Freitas

**************
antes dos sonhos

No tempo em que era noviço
livros e amores minhas ilusões.

Os livros as traças da estante
comeram e outras traças
apagaram da memória.

E os amores,
ainda hoje,
somem.

Não havia alternativa
à minha alma desiludida
senão mesmo escrever poemas.

Domingos Barroso

Poeminha para um diálogo com a Helena


Missivas à espera de remetente

Carta 1

O amor é esse bicho doido que você plantou dentro de mim. Eu disse que não queria, que não podia, mas foi tanta insistência que acabei sucumbindo. Agora estou aqui com poemas por toda a casa, o som no volume máximo ouvindo Marisa Monte, com todas essas esquisitices de um ser apaixonado. Não, não me diga que tudo isso passa. Não passa. Olha o que eu escrevi:

Essa coisa que aconteceu entre a gente
Incontinente: acho que foi ist(m)o

Vou ver as ruas, quem sabe o ar poluído me recupere de tuas purezas, dessa leveza que imantas nos gestos e nas palavras. Por enquanto hoje é sábado, neste calendário corroído de pretéritos. Te beijo com esta ânsia de tempestades.


Assis Freitas

*********************

Imensa Sorte

Lágrimas, uma sopa de lágrimas, ela prepara sem descascar uma cebola. Devagar, colher de pau girando a água na panela, vai engrossando o caldo. Lembranças, remorsos, impotência. Os três se misturando em quantidades impossíveis de mensurar. De vez em quando, uma pitada de incompreensão outra de desamparo são lançadas como quem lança um monólito no infinito e se surpreende diante do fogo que chama e queima dedos descuidados. Dedos finos, de unhas roídas, raladas pela ansiedade que zune nos ouvidos e abafa os apitos da chaleira e dos trens da infância e também o último silvo do guarda noturno em sua ronda incompatível com as nuances da cidade de vivos, mortos e indefinidos, espécie de temperos insonsos e incapazes de fazer diferença seja em um prato quente ou frio, na sobremesa ou no cafezinho servido puro, forte, amargo, e servido com ojeriza profunda aos paraísos artificiais do aspartame ou do açúcar que caria a alma e cobre de gordura a cozinha, a xícara e a verdade de que seria uma sorte se a sopa fosse de pedra.

Helena Terra

Poeminha para um diálogo com o Marco

Pronunciei teu nome ao vento
E atirei à sorte em lance de dados:
Deu silêncio

Assis Freitas

****************
ah esse vento esse vento
entra sem pedir licença
me toma por inteiro
sem esta ou aquela presença

Marco Cremasco

Poeminha para um diálogo com a Adriana

acho que cheguei tão tarde
que tudo já havia acontecido
sobrou o prato vazio
a sede no copo quebrado
a vida interrompida
a cólera: desmedida

só eu insisti em ficar
arrebol em desalinho
nuvem em assovio
argamassa de arrepios
saudação de arco-íris

Assis Freitas

*********************
... dos ratos que circulam no sótão, juntos aos abortos de risadas míopes, as flores murchas dos cadáveres, pelas comunicações eletrônicas que se cortam ao mesmo tempo que os colares de pérolas e as cordas dos andaimes ... não se atrase amor...
não se atrase.

Adriana Zapparoli

Poeminha para um diálogo com o Diego

Sigo crucificado por olhares
Silêncios, ausências
Pra todos vocês que pensam
Que eu escrevo poemas
Sinto muito decepcioná-los:
Essas palavras são apenas escarros

Assis Freitas 

************
Um relógio que regule mágoas
Um rádio que toque teus sussurros matinais
Um livro de poesia com gosto de perdão e chuva.

Diego Moraes

terça-feira, outubro 08, 2013

Poeminha para um diálogo com a Daniela

Você me disse que o
céu estava em chamas
quase em abismo
eu sorri contente
foi por um pedaço teu
que perdi o assombro
nos dentes

****************

Abismos

os olhos estão fechados
mas avistamos o abismo

as dores mesmas
ainda que belas
estendem-se em fúria

e são como pétalas
e são como bombas

que caíssem
de um céu em chamas

Daniela Delias

Poeminha para um diálogo com o Jarbas

Vivo escrevo e me repito
Porque morto só o limbo

Assis Freitas 

POETA BISSEXTO

raro escrevo.Vivo.
escrever é um verbo
intransitivo.

Jarbas Martins

Poeminha para um diálogo com a Líria

Ai amada minha
Que frio
Me percorre
A espinha
Quando alisas
As madeixas
E te enroscas
Feito gueixa
Entre brisas
Acalantos, brasas
Quando me deixas
Em mergulho
Neste rio
Que é a tua casa

Assis Freitas

*******

ó_cio

quão bom é dormir
numa cama à toa

igual a canoa
a alisar o rio

a nos transportar
para a outra margem

e sentir no dorso
o frescor da brisa

o corpo do amado
o ardor do cio

Líria Porto

Poeminha para um diálogo com a Cris


Por onde você vier
Que venha
Estou versado
Em extravios

Assis Freitas

*******
Extravio

Não lavro sem desvio
se não acho o atalho:
silencio.

Cris de Souza

Poeminha para um diálogo com Lara

Sigo cego e nu
Cismo pretéritos
Cultuo ausências
Mas não há
Nenhuma novidade
Neste silêncio

Assis Freitas

*************
refaço todos os passos...

refaço todos os passos
para te contar
algo novo

só invenção que for
para me tirar de dentro

o buraco é negro
porque estamos cegos

não há trilha
ou túnel
só o rumo exato
do inferno

há este campo vasto
sem sombra ou posto

a luz é de rachar
crânios ao meio-sonho

girando as rotatórias
em volta dos umbigos

do mato, um plano
sem guia
para cegos

Lara Amaral

Poeminha para um diálogo com a Roberta

Às vezes me dói um silêncio
Tão antigo e indelével
Feito aquela marca de batom
Que me deixaste na face
Rubro que não sangra
Mas que esmaga

Assis Freitas


*****************
O silêncio que devora a noite
é o mesmo que me come o coração,
sem preliminares.

Feito de estocadas,
golpes,
galopes surdos.

O silêncio
é um homem bruto
cuja fome esqueceu de gemer.

Vara pelas horas,
equídeo e solitário,
desmembrando-me.

Arranca, a pancadas,
um uivo negro, abortado
de caminhos que ele mutilou.

Roberta Tostes Daniel

Poeminha para um diálogo com Akira

Nada posso
Mas insisto
Vivo atalhos
Descaminhos
Sinto muito
Mas sigo

Assis Freitas

meu caminho

sigo o meu caminho
é mais forte que eu
então apenas sigo

Akira Yamasaki

sexta-feira, outubro 04, 2013

Tudo que é leve sedimenta-se no ar

És de mim este amor
A seara do inominável
Desígnios de nuvens
Orvalho de bem querer

Acordas os bemóis
Sopras ventanias
Pele do impoluto
Sede em absoluto

És de mim este amor
Fruto tão líquido
Semente ou sumo
Paradoxo do absurdo


quinta-feira, outubro 03, 2013

Balada de sereia em espera de pássaro

A raiz úmida do teu lábio
Floresce meu corpo
E vou sorvendo lento
Este hálito que me corta

Tu me inventas ilhas
Desenha girassóis
Me abre os poros
Portais de ventania

Teus dedos em cardume
Me abocanham de carícia
Fico eterno em naufrágio
Como fotografia de afogado


quarta-feira, outubro 02, 2013

Poema já antigo (à moda de Álvaro de Campos)

para Nina Rizzi

Olha Nina, quando eu morrer não digas nada
Medita em silêncio uns versos
E pensas que se pudéssemos
Teríamos enlaçado as mãos
Depois vai dar a notícia aos estranhos
Que julgavam que eu seria grande
Embora saibas que nada existe de dor
A carne, acredito, ainda é triste
E o desassossego é o meu perfume


sábado, setembro 28, 2013

Ária esguia para fogueira e ventania

Quero de ti mil amanhãs
O silvo que desprendes no olhar
Talvez o regaço dos lábios
O encontro de tantos silêncios
Mas alças a tua mão inquieta
Na avalanche de céu e nuvem
E deixas que o rubro incendeie
O vazio que permeia a distância
Desta nossa infância impossível

quinta-feira, setembro 26, 2013

3 poemas

Um outro epitáfio, bem outro

O que fui verdadeiramente
Não interessa
Ainda vão me marcar
Por causa de um verso
Que não pude evitar



Poema para dois tragos e um cigarro

Quero vícios
Que me
Levem
À morte
Pois a sorte
Eu dei a deus


Lembrando o verde de Leminski

Ocupei a grama
Céu tão bacana
Viva Copacabana

segunda-feira, setembro 23, 2013

Ária triste para a intimidade do vazio

ao poeta Antonio Ramos Rosa

Já era primavera quando tu partiste
Tão inadiável em ausência
E eu que vivo de esperas espontâneas
Preciso ser correspondido em silêncios



domingo, setembro 22, 2013

fragmento

eu queria copiar de mim
alguns pretéritos
esta minha insuficiência
do essencial
soprar iscas para o nada

sexta-feira, setembro 20, 2013

Para o poema em forma de oração

É necessário que eu peça escusas
Porque invejo a palavra luzidia
Tenho ganas pela aliteração
Suspiro pausas, zeugma, elipse
Para o verso zunir este há de ser
Em síntese ou sínquise

quinta-feira, setembro 19, 2013

Esboço para outro nascimento de Vênus

De qual mistério se veste
A luminescência da tua pele
Com quantas sílabas sopram
Os eflúvios destes lábios
De que sonora paisagem
Queima a penugem do braço
Para onde finda teu espasmo
Neste olhar de ninfa ao acaso

terça-feira, setembro 17, 2013

Uma outra ciranda para ninfa e lilases

Quisera eu entender sobre a magia
Quiçá versar sobre ninhos
Nada me cabe nesta andança de
Espantalho espantado em arrebóis
Meus folguedos são tristes labaredas
Este insone silêncio sem significado
A luz que não se ordena na retina
Fragmentos de ausência, vazios
O caos que me insufla ao nada

sábado, setembro 14, 2013

Enquanto fio zeloso a intempérie do olhar

Não me importa mais nada
Tenho silêncio e ausência
Suficientes para eternidade

sexta-feira, setembro 13, 2013

Receita para provocar dessemelhanças

Não eras pássaro
Não, não eras
Mas invitava asas
E sorvia rosas
Silêncio de orvalho
Inapreensível voo


quinta-feira, setembro 12, 2013

Canção para zelo e rude descaminho

Quando é que vai acontecer
Na saliência deste espanto
A constatação da ausência:
A delicadeza do que não seremos 

quarta-feira, setembro 11, 2013

Este diário de melancolia é o meu corpo

Sonho com dentes e eles doem
São tristes os caninos
E não há flores nos molares
Tudo me parte
Arde-me a mandíbula
Sob o fervor dos incisivos

terça-feira, setembro 10, 2013

1 máscara e outros eus

toda vez que eu passo por ela
me destila silêncio pelas mãos
os olhos ficam empedernidos
caminho em passos de nuvem
ela me furta todas as palavras
e deixa o abandono nos lábios
sinto-me oblíquo como sonho

segunda-feira, setembro 09, 2013

No fundo da noite o poema ladra dentro de mim

Eu perdi um amigo dobrando a esquina
Isso faz muito tempo, mas arranha
No meu peito como um coice
Ele gostava de soprar nuvens
Em novelos esfumaçados
E se oferecia em repasto
Ao zelo dos olhares
De tantas viagens
Paraísos artificiais em ondina
Meninas, livros, vinis
O porto, o cristo, a barra
Na saliência de rosto e sal
Eu perdi um amigo dobrando a esquina
Ainda com o trago e o copo
Engasgados de silêncio e ausência
No meu peito como um coice
Um cheiro de nuvem talvez
Coisas assim escritas podem
Fazer sentido, a existência não

domingo, setembro 08, 2013

Ária pequenina para nomear espantos

p/ Lara

Por ora nado em brisas
Neste quadro de cor
Mais bela

Desperta-me este recato
De solar realeza
A ilha do olho dela

sexta-feira, setembro 06, 2013

Partita de louvor ao teu feitio castanho

Na clara manhã de vidro
Tudo é silêncio e olvido
Há incenso nos sentidos
Este olhar de porto vívido
Rogo tua mão ainda lívido
Ao sabor do simples asilo
O saber em sede e faminto
Louvar o nada em que levito

terça-feira, setembro 03, 2013

Ciranda de infância e inconfidência

Desses sonhos mais felizes
Que não tivemos
Quero uma metáfora indócil
Quem sabe o musgo da janela
O convencimento da solidão
A tentativa inútil do silêncio
Este mar sem profundidade
O esplendor que nada reflete
O veludo de uma carne
A fugitiva lâmina do vento
O efêmero do acontecido
E o cansaço do que nunca virá

sexta-feira, agosto 30, 2013

Por que você escreve poesia?

(à guisa de um metaplagio de Orhan Pamuk)

Porque eu cresci lendo poesia
Porque não consigo me relacionar com o mundo de outra maneira
Porque acho encantador enfeitiçar palavras
Porque um dia me disseram que eu era poeta
Por que eu acredito que posso ser poeta
Porque meus amigos são poetas
Porque o verso atiça a minha curiosidade
Porque a curiosidade me leva às palavras
Porque o mundo pode respirar melhor
Porque eu posso respirar melhor
Porque eu me imponho leituras
Porque eu me repito e a poesia aceita
Porque é uma forma de amar as pessoas
Porque é uma forma de eu atrair o amor
Porque um poema me fez descobrir o amor
Porque há um vazio que não me cabe
Porque há uma ausência a se descortinar
Porque o silêncio soluça com o verbo
Porque o verbo é a minha carne que arde

quinta-feira, agosto 29, 2013

Litania para a graça de uma Gioconda

Eu vislumbro o tygre de blake
Num acorde furioso de beethoven
A solidão é mesmo um coice
Atiça todos os raios de rimbaud
Ainda não deu meia-noite e já
Me rugem fantasmas da aurora
Só teu rosto me salva do degredo
Do abismo aberto de mim mesmo

terça-feira, agosto 27, 2013

todos os rostos, o rosto

eu procuraria na rota do vento
a silhueta mais sutil do pássaro
entrementes devoraria a saliva
na sílaba luminosa de uns lábios

eu procuraria em todos rostos
atormentado, atônito, aturdido
com esta balbúrdia de olhares
do ser que navega para o nada

eu invocaria o silêncio mais impuro
para compor a ausência longínqua
até reverdecer todas as palavras
no cardume de nuvens desta tarde

domingo, agosto 25, 2013

Sobre inércias, inutilidades e afins

Não te negues aos silêncios
A este ar que atiça a face
Que cuido das ausências
Deste incessante partir
Que me queima os olhos

sexta-feira, agosto 23, 2013

Um poeminha para medrar reticências

p/ Laryssa Cagliato

Eu não sei se te pensaria num poema
Mergulho, olhos bruscos, precipício
Sei apenas que estou sozinho na tua pele
Como uma sílaba atônita e desavisada
Com essa urgência de me nutrir do singular


quinta-feira, agosto 22, 2013

Poema de intentos para descortinar altiplanos

Eu hoje acordei leve para o espanto
Cultivo arrebóis, levanto pálpebras
Vejo a minha sombra numa pedra
Viajo entre afagos de brilho líquido
Sinto a ternura que me arde as mãos
Estou excessivo, imediato, cromático
O caminho me persegue de vontades
Tão ardente me ruge o mar de sílabas

terça-feira, agosto 20, 2013

Carrego esta perdição na palavra

Sou poeta impróprio para consumo
Meus poemas são pedaços de pele
Que se queimam em busca de alforria

segunda-feira, agosto 19, 2013

Uma ária de amanhecimento em elevação

Desperto para alimentar os leões
Com meu alforje de orvalhos
Tão famintos eles de silêncios
Imploram a ausência nos olhos
Desperto para alimentar os leões
Enquanto cultivas pássaros no arrebol

sexta-feira, agosto 16, 2013

Canção líquida para afago de ninfa

Eu sempre pensei em fazer um poema
Onde coubessem ciprestes
Ou algumas plantas pteridófitas
Um poema com raiz, caule e folhas
Poema que ficasse ornado no corpo
Na marca úmida de um lábio
Como o protalo gerando gametas

quinta-feira, agosto 15, 2013

Epigrama para oferenda votiva

Comungo esta inutilidade da palavra
Este exercício frágil do amor
Cada sílaba que se que-bra:
Da ausência que arde
Na carne lacerada

terça-feira, agosto 13, 2013

Poema para janela que se tingiu de violeta

Não fosse de ti este áspero rio
Que deságua em minhas veias
A sombra da terra que emoldura
De emblemas os meus passos

Não fosse de ti o rubro da mão
Este acolhimento de vento e brisa
O incêndio transparente da face
Este augúrio que trazes no lábio

Não fosse de ti o singelo do mar
O desavisado cursar das velas
Esta geografia de circunstâncias
A cartografia íntima de um corpo



segunda-feira, agosto 12, 2013

A última lágrima de Capitu

Desde o tempo em que não existias
Já me eras a inalcançável estrela
Aquele rasgo no céu

Tu bem sabes que não existias
Nem mesmo no poema
Como uma palavra condenada
Também não me vinhas

Desde o tempo em que não existias
Contemplo aquele quadro de Monet
Pejado de nenúfares

Desde o tempo em que não existias
Compartilho este destino de águas
Aprisionadas em faces de pedra

sábado, agosto 10, 2013

Uma balada gris para tantos descaminhos

Eu nunca soube que falavas de mim
Entre os teus silêncios de ninfa
Eu nunca soube
Nem mesmo quando escovavas
Sílabas em teus cabelos
Eu nunca soube
E nesta minha ignorância de te amar
Eu nunca soube
Que prendias o ar nas retinas
E soletravas um alfabeto de distâncias
Eu nunca soube

quinta-feira, agosto 08, 2013

haikai enfim

num rasgo de promessa
queimo o último poema
na fruição deste silêncio

terça-feira, agosto 06, 2013

Fragmento para o ressoar de transparências

O rumor de uma palavra me desperta
Acordo viço
Numa terna alegria de desconhecimento

domingo, agosto 04, 2013

Antipoema para cerzir ventanias

Não quero efusividades
Nem agasalho para minha dor
Só os gatos são pardos
E transitam insones na aurora
Não quero efusividades
São tantas as febres deste parto
Só os gatos são pardos
Não me atire este sorriso de Gioconda
Que desliza entre arrebóis
São meus pés que cultivam tua sede
Mas um dia eu me morro sem mágoa
Convicto da minha inexistência

sexta-feira, agosto 02, 2013

O homem que tramava epifanias

Magritte não pintava pássaros
Ele apenas queria elevar as coisas
Ao status de asas:
Compunha cores em rotas de elevação



quarta-feira, julho 31, 2013

Fragmento líquido

Eu te esperava
E chovia
Até ver eu via
Mas chovia,
Chovia
E em nenhuma
Água você vinha

terça-feira, julho 30, 2013

Fragmento à guisa de uma resposta

na horizontal
e na
v
e
r
t
i
c
a
l
se faz amor e poesia


domingo, julho 28, 2013

Fragmento para inexistência

Eu me descobri
Num despertencimento
Aqui jaz o eu que havia

sábado, julho 27, 2013

O labirinto sentimental dos versos perdidos

Em qual galáxia se prende
Os versos que te ofertei
Em qual oferenda ou prenda
Saliva a inocência
Das palavras não lidas
Porque fostes o sutil
Encanto da metáfora
Toda a sina da metonímia
A imprevista amálgama
A perdida teia da prosopopeia

sexta-feira, julho 26, 2013

Quase pedra, quase poesia

Na cidade pequena
Pedra e poema
São o mesmo teorema

Na cidade grande
Urbe e poesia
São a mesma algaravia

quinta-feira, julho 25, 2013

Quase 1 verso, quase 1mg

Eu e meu amor
Não fomos felizes
Por um triz

Eu fazia poemas
Ela tomava rivotril

quarta-feira, julho 24, 2013

Litania para rudimentos de uma antemanhã

p/Lara Amaral

Da pele quero solfejo de sílabas
Invadir de mar tua língua
Clara semente de alumbramento

Da pele quero teu branco que urge
Ondular-me neste aceso tão cedo
Deste vosso gesto febril de enlevo

terça-feira, julho 23, 2013

fragmento

na minha linguagem de equívocos
a solidão é monossílabo
e a ausência polissemia do vazio

sexta-feira, julho 19, 2013

1 poema para a estação Rimbaud

Atravessado pelas quinas de uma palavra
Eu me debruço sobre as ruínas do tempo
Há o pálido, o frágil, o lívido
Como labirinto para todas as fugas
Teu olho me ruge como louco farol

quinta-feira, julho 18, 2013

Uma ária para esculpir lâmina e vidro

Que me soprem eflúvios
dos teus olhos
Nesta manhã tão árida

Que me corte a pele
Teus sargaços de retina

Que me bendiga o fogo
Deste azeviche
Que me brilha as mãos 

terça-feira, julho 16, 2013

quando nada mais cabe, o vazio está completo

o poeta disse que era todo coração
quiçá fosse assim meu peito
que o amor abusa de coação

sábado, julho 13, 2013

Outra canção para prelúdio e primícias

 Prelúdio

A chuva é só um detalhe líquido
A rosa um detalhe rubro
O arrebol um detalhe lúdico
O ocaso um detalhe lúcido

Primícias

Ensandecido, assim, de ausências
Desenho a solidão numa árvore


sexta-feira, julho 12, 2013

Aqueles que éramos então

Deito-me em mortes por tuas mãos
Deleito-me por esta sorte

quinta-feira, julho 11, 2013

Canção para prelúdio e primícias


1. Prelúdio

Quando tu vieres
Sonata, pergaminho
Ou arrebol
Que eu te perceba olhos
Caminho, porto, farol

2. Primícias

Quando tu vieres
Ária, manuscrito
Ou girassol
Que eu te perceba lábios
Vereda, perdição: só

quarta-feira, julho 10, 2013

Crônica para desenlace repetido

Depois que escreveu o verso
Saiu para comprar cigarros
E nunca mais voltou

Ela nunca quis ler
Aquelas últimas palavras

terça-feira, julho 09, 2013

Fragmento para outros tons

O que havia de textura
Era risco vítreo
A solidão rouge
Invadindo céu tão azul




a partir da foto de Cris de Souza






* ganhei um presente da Indigo aqui

segunda-feira, julho 08, 2013

Uma ária para deleite de sol na asa

p/ Lelena Terra

Para matizes incandescentes
Pastel, óleo, lápis, grafite
Elevam-se os tons em nuvem

Pátinas, lentes, semoventes
Serenas luzes recorrentes
Indizível que percorre a mente

Transitam pés, pétalas, cores
O que faz do sutil apontamento
O fogo-fátuo do alumbramento


domingo, julho 07, 2013

Fragmento rude

Alguma coisa é silêncio
Todas as outras olvido

sábado, julho 06, 2013

Deixa-me arder em teu ventre

É no silêncio que investigo
A procissão íntima
Para qual me entrego

Nu até o vento assovia
As coisas entardecem mas não findam
Nenhum verso me salva dessa agonia

sexta-feira, julho 05, 2013

Ode à perversidade cartesiana

como lírio aceso na imensidão
confinado ao desígnio
do rubro anseio
poema ou pedra
vapor desperto ou suspenso
de todos os fins me permeio

quinta-feira, julho 04, 2013

Ensaio para ilhas férteis e cruéis silêncios

O poeta rugiu que a carne é triste
Eu sorri em êxtase
Depois queimei todos os livros
Por destino escrevi este epitáfio:
Que a poesia não me deixe vestígios

terça-feira, julho 02, 2013

Porque o silêncio caminha imenso em teus lábios II

ser ou não ser: eis
quisera pois
esquecer o que soo

segunda-feira, julho 01, 2013

caos ótico

para Cris de Souza

o tempo que não possuo
me invade em vácuo
às vezes suo, às vezes águo

domingo, junho 30, 2013

Para os que nasceram sob o signo do incêndio

para Domingos Barroso e Akira Yamasaki


A nudez da pedra será um dia revelada
O sexo dos anjos
A infâmia dos justos
A mudez que blasfema
A lápide e o alicerce da palavra
Sob a cisma das horas
Sob o rasgo dos raios
Como epifania letal

sábado, junho 29, 2013

canto para gnomos e trevo de duende

abrir os olhos
por enquanto
no peito
a estrela vermelha
brinca de encantos

abrir os olhos
cerzir as manhãs
por enquanto
dois girassóis
descansam em rendição

abrir os olhos
por enquanto
há um visgo latente
nos musgos
que me tragam as mãos

sexta-feira, junho 28, 2013

como nuvem em sopro de imensidão

aqui as sílabas respiram
repousa, pois, o silêncio
deixa-me dançar a solidão

quinta-feira, junho 27, 2013

mais do que metades no silvo da relva

tenho fomes imensas
sedes que não cabem
em nenhum deserto
mas os olhos brindam
oásis, uma pasárgada
a euforia de respirar
como o peixe no cio

quarta-feira, junho 26, 2013

Há um poema morto na sala

Estou tão perto do silêncio
Que sinto o cheiro
Todos os cheiros da ausência

*****



Hay un poema muerto en la sala

Estoy tan cerca del silencio
Que siento el olor
Todos los olores de la ausência


Versão da Índigo

segunda-feira, junho 24, 2013

quando enfim curso a mão da ira

vou deixar que este mar siga
o que a nuvem singra
o que a espada vinga
o que o vento castiga
o que a palavra devasta

domingo, junho 23, 2013

o fogo do verbo a nos devorar a carne

não sei se é do sonho que nos escrevem os poemas,
mas eles nos devassam as retinas
à espera de um precipício:
ali onde o mergulho inexiste

a partir do poema Onírico de Lara Amaral

sábado, junho 22, 2013

poeminha para folguedos astrais

verás que um filho teu
não foge à lua
nem teme uivar até a morte

quinta-feira, junho 20, 2013

quase triunfal, quase marítima

minha poesia não é ode
estrofe, antítrofe e epodo
Píndaro ou Estesícoro

minha poesia não é hino
Píticas, Nemeias ou Ístmicas 
Alcman ou Anacreonte

minha poesia é o ínfimo
talvez o ócio de Horácio
ou a Lírica de João Mínimo 

segunda-feira, junho 17, 2013

quase pele, quase memória

qualquer cor
seja qual for
na cinza que arde

qualquer dor
seja qual for
mas sem alarde

II

Quase cor, quase dor

Qualquer redor
Seja qual for
Que se retrate 



Cris de Souza

domingo, junho 16, 2013

fragmento

“Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido…”
Fernando Pessoa

fragmento a se cumprir

queria tanto um poema
entre duas palavras:
ausência e silêncio


Assis Freitas