segunda-feira, março 04, 2013

ária solene para resguardo dos ventos


(para Daniela Delias)

guarda-me um silêncio
para antes ou depois
um repouso de nenúfares
- passagens

pousa os olhos, vês:
há miragem na poeira
- emblemas
é tudo vidro e cerração

na cidade anunciada
corre o rio desavisado
a mulher espera flores
artifícios, brincos, amor

guarda-me uns versos
embebidos de lilases
saliva tão fina na retina
heliantos, brilhos fugazes

descansa os olhos, mãos
é tudo tão dentro, dentro
vertigem tão voraz
guarda esta sede tão líquida





sábado, março 02, 2013

porque o silêncio me inunda


há coisas suficientemente breves
impossíveis de enumerar:
como a imensidão de um átimo
ou a pausa no final de um poema

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

ária para oboés e artifícios canoros


a minha vida é besta
é cesta de poesia
nuvem a me cobrir

um bem que te vejo
no olho do bem-te-vi
quando pousaste aqui

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

fragmento e alheamento


eu olho para o poema
e me penso outro
aquele que vaga
na saliência silábica
de cada palavra

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

fui morto por tua ausência


por que vieste
de tão longe
para me esquecer

domingo, fevereiro 24, 2013

eu fico com a eternidade deste silêncio


é tão misericordiosa
a palavra adeus
nos liberta outros eus

sábado, fevereiro 23, 2013

haikai de flor


inquieta lábia
fazer surgir
o sol da saia

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Ensaio argênteo para pele luzidia


Nada posso te contar do meu amor
Que é tão antigo
Apenas sei do que me incita a sede
Da sequiosa palavra ausente
Deste acúmulo de vazios

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

domingo, fevereiro 17, 2013

quase desassossego, quase soares


só diz o meu corpo
o inferno que arde
a raiz do silêncio
este estranho estar
em descontentamento

sábado, fevereiro 16, 2013

outro fragmento de sal e vento


sim, eu quero um silêncio
imenso como o mar
e traiçoeiro como teu lábio

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

fragmento circunstancial


o poema se basta de nadas:
achei isso tão mim
me ocorreu um eu

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Fragmento e açucena


Ainda resta o olor
do que me sopraria
teu hálito em esperas

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

quase sísifo, quase ardor


a solidão é fria na flor
como delicadeza na pedra
como sonho que não medra

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

fragmento e helianto


o olho da amada
respira poesia
já o corpo inspira
o suor do meu dia

domingo, fevereiro 10, 2013

fragmento amaro


a vida em certos momentos
é tão tardia
e há muito a palavra não ardia
tão excessiva

sábado, fevereiro 09, 2013

fragmento estrangeiro


quando a gente retorna,
quem será vindo?
quem sou eu?
e tu, quem terás sido?

II

tu já não eras como antes
mas meus olhos
te viam como antes
pra nunca esquecer depois

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

fragmento para catavento


o poema amanhece
eu me adormeço
em alguma palavra

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

Soneto post-moderno


se nada acontecer nada
vai acontecer se nada a-
contecer nada vai acon-
tecer se nada acontecer

tudo porém pode aconte-
cer tudo pode acontecer
porém tudo pode aconte-
cer se tudo vai acontecer

o contrário também pode
ser ao contrário pode ser
contrário de tudo vir a ser

sendo assim visto assim
contrário pode acontecer
que o nada pode se fazer

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

fragmento para solidão


em vão as paredes recitam
o alfabeto dos corpos


terça-feira, fevereiro 05, 2013

fragmento para chuva íntima


todos os poemas já foram escritos
e eu insisto a me repetir em nadas

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

fragmento para vermeer


quem disse que faço poesia
eu vivo de pequenas solidões

domingo, fevereiro 03, 2013

fragmento de pés, unhas e mãos atadas


se de amores eu me mato
ninguém duvide do afinco
rasga céu rouca trovoada
o brinco da minha amada

sábado, fevereiro 02, 2013

poema bobinho para fim de tarde


como um céu
assustado
de heliantos

é assim que
paira em mim
o teu encanto

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

para que enfim possamos seguir


minha língua
na pele tua
logo sua

quinta-feira, janeiro 31, 2013

quase sólido, quase gasoso


por mais muro que tu sejas
deve existir o lugar explícito
para que o sopro te faça ruir

terça-feira, janeiro 29, 2013

Fragmentos para ser manoel ou garrincha


Se fosse jogador de futebol
Queria ser Mané
O das pernas tortas
Saltitante garrincha

Mas como do orbe
Só ganhei o drible da palavra
Intento ser o Manoel
Menestrel passarinho

segunda-feira, janeiro 28, 2013

A ESPERA


Um dia vou sentar
e escrever a obra
da minha vida.

Enquanto isso,
atiço ventanias
nesta manhã sem fim.

sábado, janeiro 26, 2013

Ária para vento perdido no raso da caatinga


Nenhum pássaro 
me escuta
Apenas o sol arde

quarta-feira, janeiro 23, 2013

Desleituras rasas para mares vindouros


para Joelma Bittencourt

a palavra traz o passo
inscreve o traço
vaza espaço
circunscreve-se
  
(ao mar se lê
leve enlevo
ou
ledo engano)

terça-feira, janeiro 22, 2013

ária de circunscrição de asas


para Dado (Ribeiro Pedreira )

se me respiro passarinho
não sei se voo ou canto
só me sei sozinho
sem ninho

segunda-feira, janeiro 21, 2013

Quase salaz, quase concupiscente


Depois do ensaio de olhares
As línguas entraram em cena

sábado, janeiro 19, 2013

Quase assim, quase assado


Estamos quites
Ne me quitte pas

sexta-feira, janeiro 18, 2013

something in the way she mov(i)es


a remota luz da manhã
ainda fere e incendeia:
a mim, a ti, a todos.

para que insistir
em sutis diferenças?

já não me basta
de tanto silêncio
quanto entoas certa canção

quinta-feira, janeiro 17, 2013

RETRATO FALADO


DE TI FICOU O GOSTO,
A MÁGOA E A NÓDOA,
O ENGANO E O MEDO.

O ROSTO QUE PERDI
E AINDA ME PERSEGUE
DIANTE DO ESPELHO.

segunda-feira, janeiro 14, 2013

quase plurilíngue, quase plurinominal


paralelo a estes paralelepípedos
eu, pária, patino plural pluriforme
pluríssono, plurívoco, plurilátero

domingo, janeiro 13, 2013

(às vezes até o sangue incendeia)


permita-me do copo o corpo
e o vazio que nele habita
neste eflúvio de incerteza

sexta-feira, janeiro 11, 2013

quase alísio, quase trêmulo


de repente vento e silêncio
e a vida num cansaço
respira apaziguada

terça-feira, janeiro 08, 2013

segunda-feira, janeiro 07, 2013

Da série: poemas absolutamente dispensáveis

I


Ele era só concerto
Enquanto ela
Quebrava na balada

II

breve escreverei um romance
que nunca vai acabar:
será início do princípio ao fim

III

Minha hora é teu umbigo
Abrigo amigo onde fisgo



quinta-feira, janeiro 03, 2013

quarta-feira, janeiro 02, 2013

terça-feira, janeiro 01, 2013

quase lâmina, quase flor


espada, estrelícia
florete, flox
adaga, antúrio
cutelo, cravina
punhal, protea
faca, frésia
estilete, esporinha
navalha, narciso
sabre, sálvia
canivete, celósia

segunda-feira, dezembro 31, 2012

quase trash, quase happy end


O ano está acabando
Seja rápido no gatilho

Ou acontece de vez
Ou nada faz sentido

Seja breve, sintético
Diga sim bem no fim

domingo, dezembro 30, 2012

Poeminha de súbito fôlego


Faltou algo:
Eu não me dei conta
E era imprescindível

sábado, dezembro 29, 2012

Quase tédio, quase tabacaria


Não sou nada
Não quero ser nada
Afora isso
É sincero meu vazio

sexta-feira, dezembro 28, 2012

quase pégaso, quase cérbero


os cavalos do dia rosnam
como os cães do coração
vorazes vorazes vorazes

quinta-feira, dezembro 27, 2012

Poeminha do contra e desencontrado


desencanto, desencanto
ainda não é hoje que
me encontrei
amanhã, talvez,
um raio me parta
e nesse desencontro
sejam fartas
todas as vontades
e saciadas
as exéquias do dia

quarta-feira, dezembro 26, 2012

quase folia, quase chacal


vai ter uma festa
que eu não vou dançar
os sapatos cansados
se debatem
entre os versos
de pés quebrados

terça-feira, dezembro 25, 2012

quase Cortázar, quase Lalo Arias


o poeta escrevia pássaros
antes do fim e do início
eu só escrevo silêncios
nadando em vazios

segunda-feira, dezembro 24, 2012

poeminha só para Nina Rizzi


meu porquinho da índia
morreu de insolação
anarina
não soprava brisa
no sertão

domingo, dezembro 23, 2012

copla de elefante com dentes de marfim


p/ o irmão Domingos Barroso

passarinhos assustados
devoram formiguinhas

ao longe

jacarés de olhos tristes
observam rinocerontes
sob a copa das nuvens

sábado, dezembro 22, 2012

quase textura, quase Luiza



tudo se ergue na vertigem
de uma cor em saudação
até o pássaro respira suave
o canto da asa imantada:
o florir de uma imensidão






Luiza Maciel Nogueira, que ontem completou primaveras

sexta-feira, dezembro 21, 2012

Último poema para antes do fim do mundo


Teus olhos estão nas ruas
de sempre: sem você
Passeiam e se distraem
como sempre: sem você

Voaram distâncias
no mesmo lugar
de sempre: sem você

Eu estou no mesmo lugar
dos teus olhos
de sempre: sem você

Meus olhos sangram
quando eu te vejo:
sem mim em você

quinta-feira, dezembro 20, 2012

Poeminha de saudação a alvorada


Quando o amor irrompe
Exibindo a face mais tardia
Eu me pergunto pelo tempo
E sua tão pequena estada
Deito-me sobre o silêncio
E esqueço-me estrado
Na curta dádiva da estrada

quarta-feira, dezembro 19, 2012

Ensaio sobre a origem vermelha da rosa


Estava escrito que eu temeria tuas mãos
O florescimento da tua boca
A suntuosidade dos teus lábios
Tuas raízes atravessando-me o peito
O fogo e a ternura da tua carne
Estava escrito que eu morreria
Muitas mortes em teu cortejo de língua

terça-feira, dezembro 18, 2012

Balada para a garota num vestido vermelho descendo do carro branco


Ele me perguntava pelo tempo:
Será que hoje chove?
Olhava o céu, contemplava
Vinha um vento, outro vento
Os cabelos se assanhavam
Eu perscrutava o horizonte
Ele me perguntava pelo tempo:
Acho que não chove hoje!
Ele olhava e acenava um não
Acho que hoje chove!
Era um tempo até vir chuva
O tempo de espargir o pulso
Cheirar o casaco puído
Enrolar o cigarro, fluir a fumaça
Leia alguma coisa: me pedia
Eu remexia os bolsos, aceitava
As palavras do guardanapo
A grafia do medo, do arrepio

“uma vez que você foi para o inferno
e voltou
é o bastante, é a
mais silenciosa celebração
conhecida”

Ele me perguntava pelo tempo:
Será que hoje chove?
Eu olhava o céu e esperava
Vinha um vento, outro vento
A puta da esquina se escondia
Parece que vinham lhe cobrar
O pedágio da sobrevivência
Uma vez eu fui ao inferno
E lá deixei meus farrapos
Nunca mais volto, nunca mais
Mesmo que não haja nada
Além de uns ratos assustados
Eu fui ao inferno; disse a ele.

Ele me perguntava pelo tempo:
Acho que hoje chove, sim!
A grafia do medo, os dedos rangem
Recolher os sinais, dobrar-se
Nem mesmo morrendo serei feliz:
Ele me disse, enquanto a chuva caía.

segunda-feira, dezembro 17, 2012

Poeminha para máscaras em mergulho livre


sopra-me leve, breve
necessário como pétala
à margem do rio

feito asa de borboleta
voo de libélula
soluço de peixe no cio

domingo, dezembro 16, 2012

quase síncope, quase lipotimia


Encanta-me este rio, riso, líquido
A sombra das tuas pálpebras
O aconchego de lábios
O silêncio do teu centro

sábado, dezembro 15, 2012

Poeminha para assunção de anjos em cortejo


Hoje acordei com um rasgo de silêncio
E dentro do silêncio ecoava névoa
E dentro da névoa ecoavam rostos
E nos rostos só havia silêncio




sexta-feira, dezembro 14, 2012

quase tango, quase piazzola


quero samba sem nota
saliva sem lábio
quero havana, paris
adios Nonino
quero tudo que nunca quis

quinta-feira, dezembro 13, 2012

Poeminha de metafísica íntima


um poema é só um poema
nele nada contém
além de palavras e silêncios

um poema é só um poema
verbo de pele eriçada
coisas desgarradas de nós

quarta-feira, dezembro 12, 2012

Quase récita, quase efígie


Ela tinha voz de passarinho
Uma pura alma de flor
Tão ingênua em causar dor

terça-feira, dezembro 11, 2012

Discurso sobre a solidão da nuvem


tenho tanto tempo
em mim,
que não cessa
o anseio por ti

segunda-feira, dezembro 10, 2012

Quase lygia telles, quase ficção


Era uma história assim. Quase história. Ela me contava. Era sobre a Lígia. A Lygia, a escritora. Mas era uma história real. Parecia que sim. A mulher saía do cinema e se dirigia para casa. Era no Rio de Janeiro. Caminhava pelo passeio, caminhava.
De repente percebeu que dois rapazes numa moto a estavam seguindo. Percebeu, mas não queria acreditar. Os rapazes a olhavam. Ficavam a uma distância propícia para o sobressalto. A mulher caminhava, agora em passos mais rápidos. O edifício estava próximo, tão próximo, mas a distancia dos olhos era inalcançável pelas pernas.
A mulher tremia e apressava-se. Apressava-se. A mulher tremia, temia. O portão do edifício, o portão. Era ali tão pertinho. A mulher de repente correu mais que as pernas. Encontrou uma força além do físico. Agora já era do outro lado do portão, fechado. Ela, a mulher, olhou para trás e viu os dois rapazes. Os dois rapazes da moto. Até que ouviu a voz de um deles num grito: “Lygia Fagundes Telles nós te amamos”.
A mulher não conseguia encontrar olhos para chorar.



domingo, dezembro 09, 2012

Quase clave, quase copla


Ninguém me diz nada
Nem alô, nem ainda
Nem meu amor rima
Enquanto o coração
Tonto em lá desafina

sábado, dezembro 08, 2012

Quase travo, quase amargor


Primeiro eu comecei
Depois quis continuar
Agora já não sei partir

sexta-feira, dezembro 07, 2012

Quase rumor, quase rugido


Este teu gosto no meu céu entalado
Vibra em frêmito: abóbada e palato
Ser nu por tua língua circuncidado

quinta-feira, dezembro 06, 2012

quase diacov, quase lorca


p/ Carla Diacov


Entre mordidas e açucenas
Lancei-te a palavra louca
Rasgou-me veias: não a boca

quarta-feira, dezembro 05, 2012

Quase garra, quase predador


Os meus mundos
Eu ainda os sinto
Com verve e dó

Pulsar de fé o sol
Para você se ver
No poema em nós

terça-feira, dezembro 04, 2012

quase cantiga, quase caatinga


o sertão é este mar singular
que verdeja mandacarus
em profícua aridez secular

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Suíte rasa para o cavaleiro de tosca figura


p/ o poeta Décio Pignatari que foi um visionário



Sou a minha
Mais triste
Invenção

Além mar
Alamares
Ouso o já

Castelos
Corcéis
Rocinante

Que venham
Os moinhos
Pois vento há

domingo, dezembro 02, 2012

provisoriamente sem título (ou quem sabe não careça)


Eu não esqueço o que me empresta o olhar
Quanto mais atrevido o braço mais embaço
Foi de limar pedras que deleitei em nuvens
Foi no sossego da asa que encontrei o canto
Eu não esqueço o que me impregna o olhar

sábado, dezembro 01, 2012

Ode ligeira para emanação da luz de Wood


Tão ávido é o instante
De germinar silêncios
Que leve se encerra

Como um relâmpago
Ou palavra de fulgor
Na reentrância da pele

Tão ávido é o poema
Que sopra a sentença
Desta frágil existência

Como nua indulgência
Caos breve do pássaro
No subterrâneo do voo

sexta-feira, novembro 30, 2012

Ensaio sobre as orquídeas e a nudez do vidro


Ela tinha estrelas na blusa no
Dia que me contou a história
Do seu sobrenome de família
Eu a olhava nos olhos, mas
Deslizava a visão por todo o
Corpo de alvíssaras. Sílabas
Salivavam na pele até formar
Uma ilha de recônditos. Tudo
mais era anunciação de astros,
o florir incontido, lentas mãos
no labirinto apertado da sede.

Ela tinha sonhos sobre a aurora
Falava em geografias e mapas
No oceano que habitava os pés
Vez ou outra se insinuava nos
Pormenores dos caminhos, nas
Múltiplas aparições do branco
Na implosão outonal do destino
Eu sorria com as pupilas frágeis
Anoitecido na incerta navegação
Pelo fascínio da luz nos flancos
A inundar-me lábios e espumas

quinta-feira, novembro 29, 2012

Quase lasso, quase lascivo


A mim me basta
a volúpia
de uns lábios


quarta-feira, novembro 28, 2012

quase doctilóquio, quase facúndia


Preciso de um poema urgente
Com a inadiável homilética
Deste espalhafatoso silêncio

terça-feira, novembro 27, 2012

quase pirineus, quase andrade


Você não pode ser todos
Mas dentro do poema
Cabem uns trezentos
Uns trezentos e cinquenta
Em um verso que condensa

segunda-feira, novembro 26, 2012

Você não encontrou comigo naquele bar


Guardo-me na crisálida do vocábulo
No lóbulo alado de uma espera
Na saliva do silêncio que é espinho

domingo, novembro 25, 2012

Quase assis, quase valente


Eu e minha dor vestimos
Uma camisa listrada
E saímos por aí
Mas todo vento que vinha
Soçobrava para ti

sábado, novembro 24, 2012

quase borges, quase cegueira


gosto de imaginar páginas à espera
versos em espreita
a solidão dos livros à procura
de tato e olhos
o mundo devorado pelas palavras

sexta-feira, novembro 23, 2012

Quase desafio, quase fado


O tempo é esta arma engatilhada
Apontando-me nas têmporas
Que um dia estarei ausente

quinta-feira, novembro 22, 2012

Poema incrivelmente desinteressante


Esta dor que agora me lambe os olhos
Não é tua
Como não é tua esta ausência
Apenas não sinto o que há de mim:
Em ti

quarta-feira, novembro 21, 2012

Ária de contrição para os líquidos de uma enseada


No dia que pisei o mar de Amaralina
A onda lambeu o coração inteiro
Era tanta água a rebentar o peito
Era tanto sal a escorrer
Que eu estendi as mãos em dádiva
E beijei as águas benfazejas
Como quem beija os olhos da amada
E deposita nos lábios o sumo do amor

terça-feira, novembro 20, 2012

Porque você me escolheu para eu te amar


Na prateleira do mar havia fogo
Ondas incendiavam as retinas
Era tudo só velas em erupção

segunda-feira, novembro 19, 2012

quase ninho, quase refúgio


quando a palavra pousa
sobre a asa
o passarinho faz sua casa