segunda-feira, dezembro 24, 2012

poeminha só para Nina Rizzi


meu porquinho da índia
morreu de insolação
anarina
não soprava brisa
no sertão

domingo, dezembro 23, 2012

copla de elefante com dentes de marfim


p/ o irmão Domingos Barroso

passarinhos assustados
devoram formiguinhas

ao longe

jacarés de olhos tristes
observam rinocerontes
sob a copa das nuvens

sábado, dezembro 22, 2012

quase textura, quase Luiza



tudo se ergue na vertigem
de uma cor em saudação
até o pássaro respira suave
o canto da asa imantada:
o florir de uma imensidão






Luiza Maciel Nogueira, que ontem completou primaveras

sexta-feira, dezembro 21, 2012

Último poema para antes do fim do mundo


Teus olhos estão nas ruas
de sempre: sem você
Passeiam e se distraem
como sempre: sem você

Voaram distâncias
no mesmo lugar
de sempre: sem você

Eu estou no mesmo lugar
dos teus olhos
de sempre: sem você

Meus olhos sangram
quando eu te vejo:
sem mim em você

quinta-feira, dezembro 20, 2012

Poeminha de saudação a alvorada


Quando o amor irrompe
Exibindo a face mais tardia
Eu me pergunto pelo tempo
E sua tão pequena estada
Deito-me sobre o silêncio
E esqueço-me estrado
Na curta dádiva da estrada

quarta-feira, dezembro 19, 2012

Ensaio sobre a origem vermelha da rosa


Estava escrito que eu temeria tuas mãos
O florescimento da tua boca
A suntuosidade dos teus lábios
Tuas raízes atravessando-me o peito
O fogo e a ternura da tua carne
Estava escrito que eu morreria
Muitas mortes em teu cortejo de língua

terça-feira, dezembro 18, 2012

Balada para a garota num vestido vermelho descendo do carro branco


Ele me perguntava pelo tempo:
Será que hoje chove?
Olhava o céu, contemplava
Vinha um vento, outro vento
Os cabelos se assanhavam
Eu perscrutava o horizonte
Ele me perguntava pelo tempo:
Acho que não chove hoje!
Ele olhava e acenava um não
Acho que hoje chove!
Era um tempo até vir chuva
O tempo de espargir o pulso
Cheirar o casaco puído
Enrolar o cigarro, fluir a fumaça
Leia alguma coisa: me pedia
Eu remexia os bolsos, aceitava
As palavras do guardanapo
A grafia do medo, do arrepio

“uma vez que você foi para o inferno
e voltou
é o bastante, é a
mais silenciosa celebração
conhecida”

Ele me perguntava pelo tempo:
Será que hoje chove?
Eu olhava o céu e esperava
Vinha um vento, outro vento
A puta da esquina se escondia
Parece que vinham lhe cobrar
O pedágio da sobrevivência
Uma vez eu fui ao inferno
E lá deixei meus farrapos
Nunca mais volto, nunca mais
Mesmo que não haja nada
Além de uns ratos assustados
Eu fui ao inferno; disse a ele.

Ele me perguntava pelo tempo:
Acho que hoje chove, sim!
A grafia do medo, os dedos rangem
Recolher os sinais, dobrar-se
Nem mesmo morrendo serei feliz:
Ele me disse, enquanto a chuva caía.

segunda-feira, dezembro 17, 2012

Poeminha para máscaras em mergulho livre


sopra-me leve, breve
necessário como pétala
à margem do rio

feito asa de borboleta
voo de libélula
soluço de peixe no cio

domingo, dezembro 16, 2012

quase síncope, quase lipotimia


Encanta-me este rio, riso, líquido
A sombra das tuas pálpebras
O aconchego de lábios
O silêncio do teu centro

sábado, dezembro 15, 2012

Poeminha para assunção de anjos em cortejo


Hoje acordei com um rasgo de silêncio
E dentro do silêncio ecoava névoa
E dentro da névoa ecoavam rostos
E nos rostos só havia silêncio




sexta-feira, dezembro 14, 2012

quase tango, quase piazzola


quero samba sem nota
saliva sem lábio
quero havana, paris
adios Nonino
quero tudo que nunca quis

quinta-feira, dezembro 13, 2012

Poeminha de metafísica íntima


um poema é só um poema
nele nada contém
além de palavras e silêncios

um poema é só um poema
verbo de pele eriçada
coisas desgarradas de nós

quarta-feira, dezembro 12, 2012

Quase récita, quase efígie


Ela tinha voz de passarinho
Uma pura alma de flor
Tão ingênua em causar dor

terça-feira, dezembro 11, 2012

Discurso sobre a solidão da nuvem


tenho tanto tempo
em mim,
que não cessa
o anseio por ti

segunda-feira, dezembro 10, 2012

Quase lygia telles, quase ficção


Era uma história assim. Quase história. Ela me contava. Era sobre a Lígia. A Lygia, a escritora. Mas era uma história real. Parecia que sim. A mulher saía do cinema e se dirigia para casa. Era no Rio de Janeiro. Caminhava pelo passeio, caminhava.
De repente percebeu que dois rapazes numa moto a estavam seguindo. Percebeu, mas não queria acreditar. Os rapazes a olhavam. Ficavam a uma distância propícia para o sobressalto. A mulher caminhava, agora em passos mais rápidos. O edifício estava próximo, tão próximo, mas a distancia dos olhos era inalcançável pelas pernas.
A mulher tremia e apressava-se. Apressava-se. A mulher tremia, temia. O portão do edifício, o portão. Era ali tão pertinho. A mulher de repente correu mais que as pernas. Encontrou uma força além do físico. Agora já era do outro lado do portão, fechado. Ela, a mulher, olhou para trás e viu os dois rapazes. Os dois rapazes da moto. Até que ouviu a voz de um deles num grito: “Lygia Fagundes Telles nós te amamos”.
A mulher não conseguia encontrar olhos para chorar.



domingo, dezembro 09, 2012

Quase clave, quase copla


Ninguém me diz nada
Nem alô, nem ainda
Nem meu amor rima
Enquanto o coração
Tonto em lá desafina

sábado, dezembro 08, 2012

Quase travo, quase amargor


Primeiro eu comecei
Depois quis continuar
Agora já não sei partir

sexta-feira, dezembro 07, 2012

Quase rumor, quase rugido


Este teu gosto no meu céu entalado
Vibra em frêmito: abóbada e palato
Ser nu por tua língua circuncidado

quinta-feira, dezembro 06, 2012

quase diacov, quase lorca


p/ Carla Diacov


Entre mordidas e açucenas
Lancei-te a palavra louca
Rasgou-me veias: não a boca

quarta-feira, dezembro 05, 2012

Quase garra, quase predador


Os meus mundos
Eu ainda os sinto
Com verve e dó

Pulsar de fé o sol
Para você se ver
No poema em nós

terça-feira, dezembro 04, 2012

quase cantiga, quase caatinga


o sertão é este mar singular
que verdeja mandacarus
em profícua aridez secular

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Suíte rasa para o cavaleiro de tosca figura


p/ o poeta Décio Pignatari que foi um visionário



Sou a minha
Mais triste
Invenção

Além mar
Alamares
Ouso o já

Castelos
Corcéis
Rocinante

Que venham
Os moinhos
Pois vento há

domingo, dezembro 02, 2012

provisoriamente sem título (ou quem sabe não careça)


Eu não esqueço o que me empresta o olhar
Quanto mais atrevido o braço mais embaço
Foi de limar pedras que deleitei em nuvens
Foi no sossego da asa que encontrei o canto
Eu não esqueço o que me impregna o olhar

sábado, dezembro 01, 2012

Ode ligeira para emanação da luz de Wood


Tão ávido é o instante
De germinar silêncios
Que leve se encerra

Como um relâmpago
Ou palavra de fulgor
Na reentrância da pele

Tão ávido é o poema
Que sopra a sentença
Desta frágil existência

Como nua indulgência
Caos breve do pássaro
No subterrâneo do voo

sexta-feira, novembro 30, 2012

Ensaio sobre as orquídeas e a nudez do vidro


Ela tinha estrelas na blusa no
Dia que me contou a história
Do seu sobrenome de família
Eu a olhava nos olhos, mas
Deslizava a visão por todo o
Corpo de alvíssaras. Sílabas
Salivavam na pele até formar
Uma ilha de recônditos. Tudo
mais era anunciação de astros,
o florir incontido, lentas mãos
no labirinto apertado da sede.

Ela tinha sonhos sobre a aurora
Falava em geografias e mapas
No oceano que habitava os pés
Vez ou outra se insinuava nos
Pormenores dos caminhos, nas
Múltiplas aparições do branco
Na implosão outonal do destino
Eu sorria com as pupilas frágeis
Anoitecido na incerta navegação
Pelo fascínio da luz nos flancos
A inundar-me lábios e espumas

quinta-feira, novembro 29, 2012

Quase lasso, quase lascivo


A mim me basta
a volúpia
de uns lábios


quarta-feira, novembro 28, 2012

quase doctilóquio, quase facúndia


Preciso de um poema urgente
Com a inadiável homilética
Deste espalhafatoso silêncio

terça-feira, novembro 27, 2012

quase pirineus, quase andrade


Você não pode ser todos
Mas dentro do poema
Cabem uns trezentos
Uns trezentos e cinquenta
Em um verso que condensa

segunda-feira, novembro 26, 2012

Você não encontrou comigo naquele bar


Guardo-me na crisálida do vocábulo
No lóbulo alado de uma espera
Na saliva do silêncio que é espinho

domingo, novembro 25, 2012

Quase assis, quase valente


Eu e minha dor vestimos
Uma camisa listrada
E saímos por aí
Mas todo vento que vinha
Soçobrava para ti

sábado, novembro 24, 2012

quase borges, quase cegueira


gosto de imaginar páginas à espera
versos em espreita
a solidão dos livros à procura
de tato e olhos
o mundo devorado pelas palavras

sexta-feira, novembro 23, 2012

Quase desafio, quase fado


O tempo é esta arma engatilhada
Apontando-me nas têmporas
Que um dia estarei ausente

quinta-feira, novembro 22, 2012

Poema incrivelmente desinteressante


Esta dor que agora me lambe os olhos
Não é tua
Como não é tua esta ausência
Apenas não sinto o que há de mim:
Em ti

quarta-feira, novembro 21, 2012

Ária de contrição para os líquidos de uma enseada


No dia que pisei o mar de Amaralina
A onda lambeu o coração inteiro
Era tanta água a rebentar o peito
Era tanto sal a escorrer
Que eu estendi as mãos em dádiva
E beijei as águas benfazejas
Como quem beija os olhos da amada
E deposita nos lábios o sumo do amor

terça-feira, novembro 20, 2012

Porque você me escolheu para eu te amar


Na prateleira do mar havia fogo
Ondas incendiavam as retinas
Era tudo só velas em erupção

segunda-feira, novembro 19, 2012

quase ninho, quase refúgio


quando a palavra pousa
sobre a asa
o passarinho faz sua casa

domingo, novembro 18, 2012

A lenda do reino do nada e a princesa do porém


p/ Léo e Beta que me sopraram a história

Soube-se que havia um reino
Esculpido no etéreo
Na terra que adejava o nada
Ali se pastava em nuvem
Na sobrancelha do pássaro

Neste reino sem pertences
De tudo se avistava
Quando a vista se abismava
O mais fino arrebol
De tanto rubro rebentava

Conta-se que uma vez
Neste reino sem princípio
Buscou-se atônito um rei
Para cumprir o desígnio
De uma terra para habitar

Mas de eflúvios caminhos
Nem sombra, nem vento
Nenhuma luz, nem intento
Fez surgir o corcel alado
Do rei em lume iluminado

Assim por este reino do sem
Mas de quimera transformado
Florava uma seara de sonhos
De corte, castelos e torres
Para a senhora que o sonhara

sábado, novembro 17, 2012

quase sagração, quase mito


os deuses sangram
os meus olhos
quando os fito: aflito



sexta-feira, novembro 16, 2012

três poemas do quase


quase fortuna, quase ventura

noite de fazer poesia
eu acendo a fogueira
bendita seja a alegria
da língua em alforria

****** 
quase aflito, quase afoito

nem sempre o amor espera a palavra
é tudo rápido enquanto saliva a sílaba

*****

quase gênese, quase criação

agozino a palavra dentro do poema
ela não faz ruído, mas exala a alma

quinta-feira, novembro 15, 2012

quase gênese, quase criação


agonizo a palavra dentro do poema
ela não faz ruído, mas exala a alma

quarta-feira, novembro 14, 2012

Quase destino, quase estrada


Já faz tempo que parti
Tão solitário da casca
Eu que nunca crisálida

terça-feira, novembro 13, 2012

É hoje o dia!!!!

O livro pode ser adquirido pelo link abaixo:
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quando o cheiro do amor invade as retinas III


apesar da pele que te visto
me deslumbra a vista nua
quando avisto nuvens tuas

segunda-feira, novembro 12, 2012

quase bach, quase niemeyer


quem constrói catedrais
em acordes
e espirais de som,
aponta uma ponte
e arquiteta mundos


*A partir da postagem da amiga Rejane Martins

domingo, novembro 11, 2012

Canção para chamamento de aves numa praça esquecida em pôr de sol


O menino brincava curioso com o tempo
Apreciando cores, balões, algodão doce
Eu fumava solitário num banco de pedra

Alheio a todas essas vicissitudes
Um sapo fazia descompostura no vento

sábado, novembro 10, 2012

quando o cheiro do amor invade as retinas II


dentro de mim eu cismo
tanta areia no meu peito
e nos olhos há um cisco

sexta-feira, novembro 09, 2012

quando o cheiro do amor invade as retinas

há coisas tão fundas
tão fundas que
não cabem no abismo

quinta-feira, novembro 08, 2012

Todas as mulheres são eternas para o amor


Beijo a mão de deus
Na tua mão
Neste gesto de lucidez
Sou todo chão

E te amo a pupila
Que deslumbra
Fulgura no íntimo
No cerne de um voo

A cada dia que te beijo
Me salvo do naufrágio
Deste mar tão denso
De morrer sem ser amado

quarta-feira, novembro 07, 2012

ária para rostos tardios e violinos apressados


estava tão impregnado de tu
a areia da praia
o sorriso da monalisa
a nuvem da alvorada
o girassol ensimesmado
o asfalto da cidade
a praça ao entardecer
o passo na calçada
o relógio da torre
a palavra que me assalta
estava tão impregnado de tu

terça-feira, novembro 06, 2012

quase vertigem, quase amplidão


o que quero é invenção
eu, você, língua, boca
algazarra, muitas mãos
e este mel que escorre
deleitoso em todos vãos

segunda-feira, novembro 05, 2012

quase rio, quase naufrágio


o rio incita solidário
o orgulho do peixe:
líquido ócio solitário

domingo, novembro 04, 2012

poema para voz, silêncio e pálpebras cansadas


a minha dor é uma memória
rasgando o peito de vazios

sábado, novembro 03, 2012

poema de esquina para quintana


você estava tão só
e eu passarinho
foi quando passou
o poeta no alazão
e gritou:
passarão, passarão
nunca mais o ninho

sexta-feira, novembro 02, 2012

encontrado na lápide de um poeta


aqui jaz o corpo
a poesia agora
voa sem amarra

quarta-feira, outubro 31, 2012

Haikai indo


voo sobre ti
teu sorriso
bem-te-vi 

Poeminha para sinais de castanho e ouro


As pedras gorjeiam seus limos
Despertam meu instante de ócio

Na paisagem de espera e abismo
Eu penso em estações de silêncio

No súbito de tanto alvorecimento
O céu acalenta nuvens em epifania

terça-feira, outubro 30, 2012

Breve ensaio para o gorjeio do tempo



Aquela exposição de nus: nós

segunda-feira, outubro 29, 2012

o que o amor me deu


X
o que o amor me deu:

saciado de tua graça
me embelezam os percalços

IX
o que o amor me deu:

desconhecimento que não preenche
espaço maior que esta solidão

VIII

o que o amor me deu:

decidi descer ao início
mergulhar
onde tudo era sem fim

domingo, outubro 28, 2012

o que o amor me deu



VII
o que o amor me deu:

tua palavra
teu sexo
amálgama
de quereres

VI

o que o amor me deu:

esta noite me empresta
teu olhar
para eu fazer miragem

V

o que o amor me deu:

fico parado em esquadros
na imorredoura esquina

IV

o que o amor me deu:

este lábio indelével

III

o que o amor me deu:

eu nunca fico triste
eu fico sol


II
o que o amor me deu:

tenho a natureza do limo
vivo impregnado de vazios

I
o que o amor me deu:

esta saudade de olhos
de cores, de nomes
um relato sem fim:
de mim

sábado, outubro 27, 2012

tudo me corta por um fio


de deserto e sal tenho os pés
a mão queima sob sol aziago
quem erguerá soberbo gládio
chaga inquieta deste amargo

sexta-feira, outubro 26, 2012

ensaio sobre o desconhecimento e os seus desvãos


nada ouso além deste corpo
sou esta ilha sem metáforas
nuvem magra desavisada
que me venham estrelas
eu as espanto com um sopro

quinta-feira, outubro 25, 2012

Auto de contrição para asas distraídas


o amor acontece
em desconhecimento
quando o não saber
nada em silêncio
como água a espera
de rio pra correr macio

terça-feira, outubro 23, 2012

quase lábios, quase carmim


na madrugada de desejos
sonho pétalas e folguedos
teu sexo lambuzado eu beijo

Não te faço nenhum pedido




É tão tardio o meu silêncio

segunda-feira, outubro 22, 2012

Canção desavisada para acalentar apetrechos de sonhos


Esqueço datas, nomes, horários
Sou tão ermo nos meus desatinos
Ainda assim comungo alvíssaras
Gosto de polir retinas e arrebóis
Ouvir o desassossego das pedras
Meu castigo é esta impossibilidade
Tão atroz a corroer verso e palavra

domingo, outubro 21, 2012

haikai eye in the sky


a palavra é tão doce e hoje
amanheci azul, há
melhor motivo para um blues

sábado, outubro 20, 2012

quase néctar, quase ambrosia


morre este meu silêncio
na abóbada da tua boca
o trânsito atônito de luas
das nossas línguas nuas

sexta-feira, outubro 19, 2012

Haikai de alumbramento


Qualquer palavra distraída
Nesta geografia de jamais
Olhos, pernas, teus demais