domingo, novembro 18, 2012

A lenda do reino do nada e a princesa do porém


p/ Léo e Beta que me sopraram a história

Soube-se que havia um reino
Esculpido no etéreo
Na terra que adejava o nada
Ali se pastava em nuvem
Na sobrancelha do pássaro

Neste reino sem pertences
De tudo se avistava
Quando a vista se abismava
O mais fino arrebol
De tanto rubro rebentava

Conta-se que uma vez
Neste reino sem princípio
Buscou-se atônito um rei
Para cumprir o desígnio
De uma terra para habitar

Mas de eflúvios caminhos
Nem sombra, nem vento
Nenhuma luz, nem intento
Fez surgir o corcel alado
Do rei em lume iluminado

Assim por este reino do sem
Mas de quimera transformado
Florava uma seara de sonhos
De corte, castelos e torres
Para a senhora que o sonhara

sábado, novembro 17, 2012

quase sagração, quase mito


os deuses sangram
os meus olhos
quando os fito: aflito



sexta-feira, novembro 16, 2012

três poemas do quase


quase fortuna, quase ventura

noite de fazer poesia
eu acendo a fogueira
bendita seja a alegria
da língua em alforria

****** 
quase aflito, quase afoito

nem sempre o amor espera a palavra
é tudo rápido enquanto saliva a sílaba

*****

quase gênese, quase criação

agozino a palavra dentro do poema
ela não faz ruído, mas exala a alma

quinta-feira, novembro 15, 2012

quase gênese, quase criação


agonizo a palavra dentro do poema
ela não faz ruído, mas exala a alma

quarta-feira, novembro 14, 2012

Quase destino, quase estrada


Já faz tempo que parti
Tão solitário da casca
Eu que nunca crisálida

terça-feira, novembro 13, 2012

É hoje o dia!!!!

O livro pode ser adquirido pelo link abaixo:
http://www.editorapenalux.com.br/loja/product_info.php?products_id=74











quando o cheiro do amor invade as retinas III


apesar da pele que te visto
me deslumbra a vista nua
quando avisto nuvens tuas

segunda-feira, novembro 12, 2012

quase bach, quase niemeyer


quem constrói catedrais
em acordes
e espirais de som,
aponta uma ponte
e arquiteta mundos


*A partir da postagem da amiga Rejane Martins

domingo, novembro 11, 2012

Canção para chamamento de aves numa praça esquecida em pôr de sol


O menino brincava curioso com o tempo
Apreciando cores, balões, algodão doce
Eu fumava solitário num banco de pedra

Alheio a todas essas vicissitudes
Um sapo fazia descompostura no vento

sábado, novembro 10, 2012

quando o cheiro do amor invade as retinas II


dentro de mim eu cismo
tanta areia no meu peito
e nos olhos há um cisco

sexta-feira, novembro 09, 2012

quando o cheiro do amor invade as retinas

há coisas tão fundas
tão fundas que
não cabem no abismo

quinta-feira, novembro 08, 2012

Todas as mulheres são eternas para o amor


Beijo a mão de deus
Na tua mão
Neste gesto de lucidez
Sou todo chão

E te amo a pupila
Que deslumbra
Fulgura no íntimo
No cerne de um voo

A cada dia que te beijo
Me salvo do naufrágio
Deste mar tão denso
De morrer sem ser amado

quarta-feira, novembro 07, 2012

ária para rostos tardios e violinos apressados


estava tão impregnado de tu
a areia da praia
o sorriso da monalisa
a nuvem da alvorada
o girassol ensimesmado
o asfalto da cidade
a praça ao entardecer
o passo na calçada
o relógio da torre
a palavra que me assalta
estava tão impregnado de tu

terça-feira, novembro 06, 2012

quase vertigem, quase amplidão


o que quero é invenção
eu, você, língua, boca
algazarra, muitas mãos
e este mel que escorre
deleitoso em todos vãos

segunda-feira, novembro 05, 2012

quase rio, quase naufrágio


o rio incita solidário
o orgulho do peixe:
líquido ócio solitário

domingo, novembro 04, 2012

poema para voz, silêncio e pálpebras cansadas


a minha dor é uma memória
rasgando o peito de vazios

sábado, novembro 03, 2012

poema de esquina para quintana


você estava tão só
e eu passarinho
foi quando passou
o poeta no alazão
e gritou:
passarão, passarão
nunca mais o ninho

sexta-feira, novembro 02, 2012

encontrado na lápide de um poeta


aqui jaz o corpo
a poesia agora
voa sem amarra

quarta-feira, outubro 31, 2012

Haikai indo


voo sobre ti
teu sorriso
bem-te-vi 

Poeminha para sinais de castanho e ouro


As pedras gorjeiam seus limos
Despertam meu instante de ócio

Na paisagem de espera e abismo
Eu penso em estações de silêncio

No súbito de tanto alvorecimento
O céu acalenta nuvens em epifania

terça-feira, outubro 30, 2012

Breve ensaio para o gorjeio do tempo



Aquela exposição de nus: nós

segunda-feira, outubro 29, 2012

o que o amor me deu


X
o que o amor me deu:

saciado de tua graça
me embelezam os percalços

IX
o que o amor me deu:

desconhecimento que não preenche
espaço maior que esta solidão

VIII

o que o amor me deu:

decidi descer ao início
mergulhar
onde tudo era sem fim

domingo, outubro 28, 2012

o que o amor me deu



VII
o que o amor me deu:

tua palavra
teu sexo
amálgama
de quereres

VI

o que o amor me deu:

esta noite me empresta
teu olhar
para eu fazer miragem

V

o que o amor me deu:

fico parado em esquadros
na imorredoura esquina

IV

o que o amor me deu:

este lábio indelével

III

o que o amor me deu:

eu nunca fico triste
eu fico sol


II
o que o amor me deu:

tenho a natureza do limo
vivo impregnado de vazios

I
o que o amor me deu:

esta saudade de olhos
de cores, de nomes
um relato sem fim:
de mim

sábado, outubro 27, 2012

tudo me corta por um fio


de deserto e sal tenho os pés
a mão queima sob sol aziago
quem erguerá soberbo gládio
chaga inquieta deste amargo

sexta-feira, outubro 26, 2012

ensaio sobre o desconhecimento e os seus desvãos


nada ouso além deste corpo
sou esta ilha sem metáforas
nuvem magra desavisada
que me venham estrelas
eu as espanto com um sopro

quinta-feira, outubro 25, 2012

Auto de contrição para asas distraídas


o amor acontece
em desconhecimento
quando o não saber
nada em silêncio
como água a espera
de rio pra correr macio

terça-feira, outubro 23, 2012

quase lábios, quase carmim


na madrugada de desejos
sonho pétalas e folguedos
teu sexo lambuzado eu beijo

Não te faço nenhum pedido




É tão tardio o meu silêncio

segunda-feira, outubro 22, 2012

Canção desavisada para acalentar apetrechos de sonhos


Esqueço datas, nomes, horários
Sou tão ermo nos meus desatinos
Ainda assim comungo alvíssaras
Gosto de polir retinas e arrebóis
Ouvir o desassossego das pedras
Meu castigo é esta impossibilidade
Tão atroz a corroer verso e palavra

domingo, outubro 21, 2012

haikai eye in the sky


a palavra é tão doce e hoje
amanheci azul, há
melhor motivo para um blues

sábado, outubro 20, 2012

quase néctar, quase ambrosia


morre este meu silêncio
na abóbada da tua boca
o trânsito atônito de luas
das nossas línguas nuas

sexta-feira, outubro 19, 2012

Haikai de alumbramento


Qualquer palavra distraída
Nesta geografia de jamais
Olhos, pernas, teus demais


quinta-feira, outubro 18, 2012

Canção de ninar libélulas e madressilvas


Eu continuo aqui cultivando arrebóis
Alimentando os girassóis de orvalho
Neste inefável contemplar do porvir

Enquanto não me vem os teus olhos
A saliva e a sílaba são o amálgama
Do desmedido soluço de uma estrela

quarta-feira, outubro 17, 2012

Auto de imolação para invólucros imarcescíveis


As horas não duraram tanto quanto teu céu
A impor estrelas no bulício de mãos
O cisco dos astros nos olhos, o visgo, a cica
E aquela lua em teu seio suplicando dentes

terça-feira, outubro 16, 2012

antipoema para uso tópico II


O poema vive de alforria
Palavra solta, asa vadia
Cataclismo do verbo
Metáfora que rumina
Decerto não cabe na lira
Deste poeta que cisma

segunda-feira, outubro 15, 2012

quase haikai, quase leminski


um dia te esqueço completamente
no nome, na carne, na alma
mas isso tudo é tão lento, tão lento

domingo, outubro 14, 2012

quase presságio, quase invento


já não contemplo arrebóis
arde cálida a tarde
como você me sonha em tua saudade?

sábado, outubro 13, 2012

quase Gioconda, quase Marylin Monroe


hoje vi o sol como nunca tivesse visto antes
era como se todo brilho se fosse de repente
naquele sorriso de mona lisa incandescente


sexta-feira, outubro 12, 2012

notas leves para um diário minimalista III


um soluço me atravessa
e logo se evade:
saudade


quinta-feira, outubro 11, 2012

quase tudo, quase fim


nem bem me chega e eu findo
tão fundo eu fito o meu bem
e esse querer tão aflito

há dias que o sol não medra
não vicejam os arrebóis
nada atua em favor do amor

nenhuma palavra crisálida
nenhuma asa em alvoroço
nenhuma casa é repouso

nem bem me chega eu findo
ao verso me dou em olvido
lágrima de eterna remissão

há dias que não me corre rio
nada me cede a margem
não há correnteza ou arrepio

nenhuma imagem em catarse
nenhuma plenitude escrita
nenhuma alvíssara me arde

quarta-feira, outubro 10, 2012

tratado sucinto sobre a forma da nuvem II



Não te conheço a alma dos anelos
Apenas decomponho frases, anseios
E neste périplo tonto em tanto céu
Por rotas, bússolas, ácidos extravios
Me curvo aos teus lábios em desafio

terça-feira, outubro 09, 2012

notas leves para um diário minimalista II


Não precisa muito pra dizer te amo
Às vezes tudo é pouco, tudo é nada
Às vezes o mínimo é o que basta

segunda-feira, outubro 08, 2012

notas leves para um diário minimalista


para Karinne Santiago


Esta sede que me invocas
Debruçada sobre o mar
Atiça ondas e não és maga

sábado, outubro 06, 2012

poeminha para acontecer desalinhos


quando a poesia te amanhece
em sutil e inconsútil disfarce
voo para ti em brisas e lilases
no emaranhado de uma frase

sexta-feira, outubro 05, 2012

canto agônico no jardim do Hades


o homem que te amava morreu
foi para o mar, atirou-se nuvens
fez trilho e trem, faca nos olhos
lamina no pulso, flor no pulmão
persignou disparo, cancro raro
pó e cicuta, arsênico e cianeto
serpente do Nilo, corda de forca
invadiu sinal, perdeu o elevador
flutuou na ponte, imolou serrote
ardeu o coração, bala na fronte
espera rijo a nau do Aqueronte

quinta-feira, outubro 04, 2012

Antipoema para adorno de cera


Mais um dia, outro dia
E eu tão só, sozinho
Asa sem passarinho

quarta-feira, outubro 03, 2012

Haikai de entrega


Ouve os elogios do amor
A nuvem canta ao ouvido
Nestes versos sem sentido

terça-feira, outubro 02, 2012

Poeminha tão besta, tão besta


Tanta flor havia ali
No poema no caqui
Os teus olhos parati
O soslaio para mim

segunda-feira, outubro 01, 2012

solilóquio pra cacaso


minha pátria é arquipélago de nadas
um mergulho no vazio
o bolso cheio de abismos

domingo, setembro 30, 2012

ária de desvanecimento em nuvem e nau


quando eu em ti me deito nu
e tu tão coberta de arrepios
rio e prece se entrelaçam
e na saga de mãos e pele
outra linguagem acontece

sábado, setembro 29, 2012

disdiadococinesia


à forma da árvore: distasia
à forma da nuvem: ataxia
à forma da pedra: dismetria

sexta-feira, setembro 28, 2012

À deriva na rota de angústia dos elefantes


“A minha alma persegue um naufrágio maior”
(Verlaine)

De capim e marfim são os meus dias
E as patas elevam sais de purificação
Tenho o deserto de nuvens a pacificar

quinta-feira, setembro 27, 2012

poeminha de alvíssaras e estrelas


na manhã:
o incêndio das tuas coxas

quarta-feira, setembro 26, 2012

Poeminha de decocção


Meu rosto é silêncio e sal
Nenhuma água me banha
Mas recitam-me líquidos

segunda-feira, setembro 24, 2012

Ensaio para aves astutas, assustadas com o sibilo do canto


“Temos a arte para não morrer da verdade”
Friedrich Nietzsche

Não sei por que razão coleciono
estragos, abismos, desvios
Tenho uma inata propensão ao silêncio
Quando me olham eu enrubeço
Mas na maioria das vezes sou invisível
Nunca me atraso, nunca me esqueço
Estou sempre atento, cordial, solícito
Com um interesse imediato aos afetos
Cultivo a arte de não morrer de tédio
De disfarçar a verdade com o sorriso
De oferecer possibilidade ao encontro
Afora isso não há nada de precioso,
De virtudes graves, apenas melancolia
Uma terrível e imensa melancolia

domingo, setembro 23, 2012

Para uma poética de reconforto, aço e espinho


para o poeta Jozailto Lima

A palavra vive de alvíssaras
Anunciações, epifanias
Viceja em prado

A palavra vive de súbitos
Almeja desatinos e soluça
Feito raio em trovoada

A palavra se me destina
Em sedução de ouvido
E eu rumino os sentidos
Feito boi em pasto bonito

sábado, setembro 22, 2012

poema de elevação para dias benfazejos


(um metaplagio de Vinicius)

porque hoje é sábado
e eu me encanto mais de ti
e a vastidão dos teus olhos
veste os passos de imensidão
porque hoje é sábado
e o é dia da criação
e o poeta disse que há o mar
que em vagas aqui não está
e meu verso está entrelaçado
na quimera dos teus cabelos
no anseio da tua voz
que fecunda nuvens e brisas
porque hoje é sábado
eu cultivo esta vontade de gênese
de ser teu único na asfixia dos dias

sexta-feira, setembro 21, 2012

poema para cortejo de anjos em asfixia


para os poetas parceiros Lalo e Marcantonio

hei de compor um poema
não com sílabas, palavras
mas com dentes, lâminas
gesto impuro, garra afiada

e hei de te ofertar a lágrima
mais calcificada desta face
o silêncio mútuo dos olhos
a unha puída do desenlace

quinta-feira, setembro 20, 2012

ária para olhos, rímel e vagões descarrilados



para a poeta Lara Amaral

tão quieto hoje estou
nenhum alento
o tempo me empresta
preciso ler um poema teu
para ver se medra a brisa
como a teimosia na pele
ou a seiva n’alguns olhos

insisto no ânimo na palavra
na órbita de um desejo
mas guardo-me escorpiões
tão tenazes no sangue
preciso ler um poema teu
fazer transitar os líquidos
nesta estação incorpórea

quarta-feira, setembro 19, 2012

Diálogos poéticos IV


Ária de providência para sopro de comunhão

Eu não sei como nascem os anjos
Mas acredito em epifanias
Na raiz de quimeras, alvoradas
Na saliência do silêncio
No movediço das palavras

Eu não sei como nascem os anjos
Nem mesmo sei destes espinhos
Das laminas afiadas em um corpo
Só sei do rasgo, do soluço, do grito
Do verbo que não nomeia, mas urge

inspirada neste poema
de Leonardo B. Leonardo

Um Anjo Nasce



Em certas manhãs que na medula
dum espinho
na água e no sal,
no linho
remendado no sopro das cinzas

revolvo do chão
como se fosse corpo,
o canto da terra
e então um anjo nasce.

Em certas manhãs 
e apesar das águas abruptas, tão calmas
como palavras
da palavra, da raiz o saliente silêncio
primeira comunhão

antes que se faça azul 
o dia coração
branco ou negro, cinza rosa velho baço,
devolvo insignificante, o corpo
ao nome que me já não sei

e ao mundo, e no mundo
quer eu queira, quer não
um anjo nasce.


terça-feira, setembro 18, 2012

Diálogos poéticos III


Ária para contralto azul e tenor vacilante

Procuro meu braço
Aquele de outrora
Que erguia sutilezas
E tocava peles, livros
Musgos, frios metais
A lira incandescente

Procuro meu braço
Aquele da mão
Que na xícara de então
Mergulhava a madeleine
Que ajeitava os óculos

Procuro meu braço
Memória de auroras
Que sussurram árias
Neste ouvido cansado

inspirada neste poema
de Domingos Barroso

entre a xícara e os óculos

Procuro pela casa algum objeto
que me venha dar um abraço.

Sinto falta dos abraços dos objetos
quando tonto me seguro pelas paredes.

A minha xícara sobre a mesa
silencia-se de lábio cortado.

Imagina que a desprezo depois daquele dia
em que alguém a levou à boca
e a deixou cair.

A minha xícara apartou-se
do meu coração e hoje
é apenas uma fria
cerâmica.

A minha salvação
é que tenho os óculos
que me falam ao ouvido
para erguê-los contra a luz
e tentar ver algum novo arranhão.

http://domingosbarroso.blogspot.com.br/2012/09/entre-xicara-e-os-oculos.html


* Poemas meus na revista Mallarmargens, um luxo!

http://www.mallarmargens.com/2012/09/3-poemas-de-assis-freitas.html