segunda-feira, setembro 17, 2012

Diálogos poéticos II


Outra ária para substantivos gozosos

as cigarras arrebentam
de tonto cantar,
como um blues,
uma lareira, um luar
quem viu os azulejos
quem plantou orquídeas
“que me pagará o enterro
e as flores”, poeta
“se eu me morrer de amores”

inspirada neste poema
de Daniela Delias

Azulejos


não dançamos aquele blues. nem daquele amor,
de morrer tambores arrebentando o peito,
morremos.

ontem reparei  nos azulejos.
nos respingos de tinta verde
sobre a pedra do alpendre.

pensei correio, comida, tinta de cabelo.
tão clichê morrer de amor,
e nem dançamos aquele blues.

em outubro terei orquídeas.
você viu o preço das flores? 


****

Vejam o presentaço que ganhei da querida Vais.



A memória das marcas


para Assis

A identidade impregnada nas palavras:
imagens, sons, odores
É só tocá-las
Vibram na frequência das ondas
Na aura do orbe
A cismar em mais de mil e uma alucinações
Um fio de cabelo caído na pedra
É só tocá-la
E todo código depositado:
fragrâncias, ruídos, melodias
Fatos impressos
Espaço magnetizado em captação profana
Eflúvios
Os giros dos vórtices velozmente
gerando campos carregados eletrificados
Luminosos
Invisíveis
Sentidos nos pelos
nas profundezas
Superfícies alisadas
tocadas pelas pontas
na espuma 
nos grãos
na mineralidade
nas condensações
na materialidade delirante 
da existência


http://aosabordotoque.blogspot.com.br/2012/09/a-memoria-das-marcas.html

domingo, setembro 16, 2012

Diálogos poéticos


ária de substantivos gozosos

desses últimos
pairam quandos
ruindo, ruindo
areia no mar, ar
tonta sinestesia
uma casa tomada
um filme noir

*

inspirada neste poema de Nina Rizzi

o último poema


ah, que judiação, nosso chão preferido, os melhores cinepoemas,
- tombados, tomados, igreja.

dunas. menir. ruínas.


sábado, setembro 15, 2012

poeminha em desconcerto de cobiça


Quando tu me chegas delírica
Em voluptoverso, amalgamante
Eu me treslouqueço, subirrepio
E abismabraço em languianseio

sexta-feira, setembro 14, 2012

Poeminha para lascívia do orbe


no âmago do verso
late a estrela difusa
espraiada e silente

e tu me corróis:
inconsútil
em arrebóis

quinta-feira, setembro 13, 2012

balada inominável


dos alísios que me inventam
desenho sonhos
desenho tramas e rimas
sou o vazio no oco do mundo
a poesia não me salva
mas é a maldita solução
para criar o necessário rito
de limar as agruras do tempo
o desconcerto do amor
a inquietude e todo rumor
o caminho da estrela
o rio que segue sem bússola
a balada inominável
de uma senhora da noite
não tem pressa o fim do mundo
quando o vasto corre na veia
e os sinais acendem a solidão
é somente a sede dos lábios
o sopro, o soluço de um abraço
das mãos em desafio, o fio
torto, íngreme, da lua em flor
de tudo a inutilidade sem fim
Quem me dera um pouso
Uma choupana de quimeras
Um poema cheio de etceteras
Um vaso perfumado de alecrim
Que tudo dói em mim
Que tudo dói em mim
Como a dor de uma saudade
Como um girassol amargo
Corroendo dentro de mim

quarta-feira, setembro 12, 2012

balada para nuvens em suspensão


não há nada mais leve
que o voo do pássaro:
a não ser é claro o canto

terça-feira, setembro 11, 2012

poema para descansar em teus líquidos II


não tem pressa o fim do mundo
quando me abres tuas pernas
e inundas o sol de súbitos e líquidos

segunda-feira, setembro 10, 2012

poema para descansar em teus líquidos


quando eu me julgava teu
tão fiel na imprecisa memória
da água que elevava o musgo

todo equilíbrio era um olhar
como uma seda para o lábio
e nós para acender a solidão

domingo, setembro 09, 2012

Poema para a memória oculta de um aroma


Se acende a chama do corpo
Ascende em fúria o que leio
O soluço manso da palavra

Vem o vento de um lume
Escreve à mão o que respiro
O leve suspiro da estrela

Sonho a seiva de um nome
Apetece o sabor da urgência
A imperfeição que se realiza

Há o vasto que corre na veia
Infindável lava que consome
Este sereno rosto de ausência

sábado, setembro 08, 2012

poeminha de conjunção soberana


você já me era antes de nos existirmos
hoje tudo me é conjugação de abraços
quando juntinhos nos elevamos em laço

sexta-feira, setembro 07, 2012

o desconcerto do amor e outras inquietudes


aguardo a sede dos lábios
com tuas vestes de nuvem
e nada envelhece a espera
para deitar-me em fruição
de astro e lua no teu corpo
já me és flor neste enlace
de sopro, soluço e abraço
a erguer horas sem alarde

quinta-feira, setembro 06, 2012

Poema de urgência para o tumulto da alvorada


De que secreta miragem
Viceja a árvore da manhã
Quando o lábio dá vida
Ao ventre que se excita

De que imorredouro anseio
A ubíqua e límpida luz
Traça voltas e enleio
Em teu descuidado seio

De que açoite mais pleno
Das tuas mãos em desafio
No mister lento da língua
Nasce o jorro tão intenso

quarta-feira, setembro 05, 2012

poeminha de simpatia


eu assumo:
nem preciso
me apresentar
não tenho livro
para ser lido;

a poesia que faço
mal cabe no talhe
do ciberespaço

terça-feira, setembro 04, 2012

poeminha de padecimento


sofro de uma inutilidade sem fim
nenhuma palavra me salva

segunda-feira, setembro 03, 2012

Sopro de árvore frondosa e língua misteriosa


Oh poeta augusto, verso singular
De logro vivo eu, em rogo
Oh tão sutil abismar-se
Quem me dera um pouso
Uma choupana de quimeras
Um poema cheio de etceteras
Um vaso perfumado de alecrim
Que dói em mim/Que dói em mim
A carne virginal de uma palavra

domingo, setembro 02, 2012

poeminha de cão danado


a minha saudade é um girassol amargo
a saliva de sol poente
este agosto aziago no dente 

sábado, setembro 01, 2012

sonata para uma chuva em olhos pequenos


em qualquer espaço
no orbe, na via láctea
em qualquer lugar

nos poros, nos polos
na língua equidistante
na pele nova da nuvem

amor é muito pouco
não cabe na dimensão
de palavra alguma

sexta-feira, agosto 31, 2012

sobre a explanação do raso e seus limos


(versão em sertania)

meu olho gorjeia na manhã
caminho raso sobre estrado
nem o sol incendeia acauã

corre arruinada em vitupério
a nuvem paira sobrancelha
na retina insolente não há rio

os pés se destinam a espinho
na margem silente da pétala
como teu lábio que exala fala

p.s. “fui, como ervas, e não me arrancaram”

quinta-feira, agosto 30, 2012

sobre a explanação do raso e seus limos


pois me habitam os silêncios
peixes, náufragos, delgados
não me conheci no ontem
na palavra imersa em vazios
pois me carrego alheio e trôpego
no desenlace de pedra e agulhas
de lábios em artifício de esperas
e um sol a ferver nas têmporas

quarta-feira, agosto 29, 2012

Nenhum silencio vaza do relâmpago


Tudo se perde neste ermo
Neste tecido de linguagem
Nada se fixa nas retinas
Nem o ar soprado do lábio

Espaço sem memória
Flecha solta em extravio
Até teu nome se apagou
Na tez da lamina, por um fio

Tudo se perde neste ermo
O caminho da nuvem em líquen
A consagração do fogo e do cravo
Este turbilhão que emana do raio

p.s. “Sei que estou vivo
entre dois parênteses”

terça-feira, agosto 28, 2012

Sobre a luminosidade do espanto e outros arrepios


(à guisa de um metaplagio de E.E. Cummings)

Ainda douram teus lábios amados
No sonoro encontro de perfumes
E eu tão ignorante de tua fortuna

Senhor errante numa terra perdida
Curvando-me ao sabor do súbito
“Quando o meu amor vem ter comigo”

p.s. “a função do amor é fabricar desconhecimento”

segunda-feira, agosto 27, 2012

um poema que poderia ser punhal


quero registrar que
por absoluta falta
intentei hoje
este rasgo:
pássaro raro

para quando
divisar
a barca que
abisma ao nada

p.s. se nada tenho a dizer
por que imolar o silêncio?

domingo, agosto 26, 2012

A compreensão do peixe e outros artifícios do amor


Te esboço em rio
Para fluir tuas águas
Navegar-te os flancos

Fazer-me espuma
Para teu itinerário
E assim inundado

Imerso neste rasgo
Vagar em cardume
De saliva, lua e lume

sábado, agosto 25, 2012

canção para o que vejo, o que sou e suponho


ouço do verbo que me açoita:
a crua correnteza do silêncio

dos átimos que me soçobram
que vinguem súbitos do olhar

da mão que verga ato e gesto
dou-me lavra do palimpsesto

p.s. “Tudo o que amei, amei sozinho”

sexta-feira, agosto 24, 2012

uma prosa


Ensaio fugaz para um desatino mnemônico    

Como você sabe meus dias continuam iguais. Acordo cedo e acendo o cigarro. É a primeira epifania. A sagração de todas as mortes que podem advir daquela fumaça. Mas é assim mesmo, a morte está sempre nos calcanhares, porque não traga-la para o âmago do pulmão.
Dito isso, já estou me preparando para ir ao trabalho. O honesto trabalho que todos admiram, o serviçal do sistema, o aprumado senhor do capital que nos abençoa. No trânsito discuto, xingo, blasfemo: tudo isso com os vidros fechados. Porque aqui dentro um tumulto perambula pelas veias.
De todas as coisas que você sabe, eu nunca te escondi nada, nadinha. Algumas são simples devaneios, de fato não existem. O problema é que há muito não consigo discernir entre as coisas de fato, entre o ato e o sobressalto. Brincadeira, amor, eu tinha que aproveitar umas rimas nesta epístola para alegrar o enredo. Ou seria desenredo.
Como você sabe eu não consigo contar nada de forma linear. Tenho que por uns adereços, uns penduricalhos para dar ritmo. Outro dia li um poema de Rimbaud em que ele dizia “eu só escrevo silêncios’”. Sabe quando uma coisa mora dentro da gente, fixa residência nas retinas. Assim fiquei eu com o verso do poeta.
Assim como fico com todos os silêncios que me habitam e todos aqueles outros que ainda fazem eco nas retinas. Fico pensando se a morada do silêncio seria a retina. Ou será que ele perambula pelos ossos quando a gente caminha, se excita quando a gente faz sexo, fica triste quando a gente chora. O silêncio e os seus sentidos. Acho que vou compor um ensaio: “a gênese do silêncio sob a ótica de um entardecer”.
O que tu achas, amor? Como você sabe entardece rápido por aqui, do lado de cá. É aquela hora em que os girassóis desfilam seus alamares incendiando o horizonte. Tu lembras de quantos poemas eu fiz para ti sobre os girassóis, e do teu espanto quando me referi ao helianto (helianthus annuus), e tu não sabias que um outro nome designava esta planta caracterizada por possuir grandes inflorescências do tipo capítulo, cujo caule pode atingir até 3 metros de altura e apresenta filotaxia do tipo oposta cruzada, notável por "olhar" para o Sol, comportamento vegetal conhecido como heliotropismo.
 Tanta coisa para nada, não é amor. O breve conhecimento sobre o efêmero. Sei que tu percebes as coisas com eu, por isso te escrevo. Como se fosses a destinatária dos meus anelos ( eu ia escrever sonho, amor, mas anelo carrega uma simbologia maior).
Sabe aquele poema que tanto gostas do Neruda: “Te amo sem saber como, nem quando, nem onde, assim te amo porque não sei amar de outra maneira”. Encontrei-o numa edição antiga em um sebo, tem uns riscos de caneta em alguns poemas, mas mesmo assim comprei-o. Pensei em enviar junto com esta carta que estás lendo agora enquanto escrevo, porém desisti. Quero te entregar pessoalmente, sabe, sentir o livro e a textura da tua pele juntos.
Outra coisa: aquele filme “Os contos de Nova York”, consegui uma cópia para assistirmos. É tão belo, amor, com aquela canção do Procul Harum:  A Whiter Shade of Pale. Tenho tantas coisas para fazermos juntos que não cabe numa existência. Por isso a urgência das palavras.
E por falar em urgência, amor, tenho que finalizar. O telefone está tocando sem parar. Como você sabe, ainda não consegui me desvencilhar de muitas coisas. E elas rugem apressadas querendo companhia. Aquele tumulto, tu sabes, se enrosca lentamente: inexprimível.
A ti só aspiro em augusto retiro.

p.s. este final é Rimbaud (esqueci de por as aspas)
p.s.2 é um trecho da Canção da Torre Mais Alta

Eu e minhas indagações para o mar


escrever, escrever, escrever
até vir o súbito e o infinito
na palavra:

quinta-feira, agosto 23, 2012

Dois querer


poeminha de abraço enfermo da ausência

faço versos da distância
que enlaço do teu passo
todo pretérito em desejo
guardo saudade e cheiro
imerso no largo imenso

haikai minimalista

no mesmo passo de aquém
lanço chamas ao acaso
para a solidão não há refém

quarta-feira, agosto 22, 2012

Efemeridades


1.   a paisagem vazia é um templo para vicejar palavras

2.   assim emplumado em átimo o verso nada em sobressalto

3.   inventar do pássaro a palavra asa e tomá-la de voo

4.   a gente se esquece na carne, nunca na palavra

terça-feira, agosto 21, 2012

Poeminha de sagração à moça do sonho


Já não sonho com estrelas
Desde que teus olhos
Povoaram meu orbe
Em delicada desordem
Nem mesmo os girassóis
Atenuam a sagrada dança
Da tua aparição em bemóis
Já não sonho com estrelas
Hoje elas me percorrem
As veias em suntuosa viagem

segunda-feira, agosto 20, 2012

uma ode a fajardice


eu vou ao novo rastejante
que de verdade nada novo há
alguns trocadilhos e eis o ovo
como queria colombo: de pé
o mundo é mesmo escombro
dou-me murros, muro e ombro
qualquer trambolho, mondrongo
a liturgia do aparente: bingo
ô menina acertei no milhar
que se lixe o mundo, que lixo há

domingo, agosto 19, 2012

ária para uma geografia em desatino


eu te prometo o silêncio
da minha palavra
alçada ao teu anseio

nuvem, brisa, areia
o recato de crisálida
o teu sopro de sereia

sábado, agosto 18, 2012

Adejar o infinito em miragem cigana II


a lâmina que corta
a nuvem vaza em rio
ou chora em mar?
ensandece a mão
que faz o rito?
e o amor risca em visgo
o laço oblíquo do olhar?

sexta-feira, agosto 17, 2012

Adejar o infinito em miragem cigana


este rio que me corre
dos pés à margem

não habita o peixe
com o seu delgado

antes corrói a asa
estes corcéis alados

quinta-feira, agosto 16, 2012

Com as palavras nos calcanhares


lascívia
concupiscência
o verso insustentável

a balada do velho marinheiro
a mão que sonhou a rosa
e o nada: neste imenso branco

p.s. "eu escrevia silêncios"

quarta-feira, agosto 15, 2012

Antipoema para uma estação de Rimbaud


Dos meus antepassados
Trago este silêncio
A louca ventania
Os pés descalços
A impureza na alma
O inferno na palavra

p.s. "Quando tu partires, enfim
Nada restará de mim"

terça-feira, agosto 14, 2012

Balada para moça com o aroma das manhãs


Ela vinha vindo
Até ficar
No sem distância

Eu parado,
Rio sem margem
Fluía em assovio

Ela vinha vindo
Até soprar
Hálito e lábio

Eu parado
Vela sem mar
Em tonto extravio

segunda-feira, agosto 13, 2012

Ária de sobressalto para futuros erros


Ainda não será hoje
Que irei colher
Os alumbramentos
Do teu olhar

Mas fito a espera
No semblante
Da aurora silente

E não me canso
De imolar este vazio
Que corrói as mãos
Em forma de nós

domingo, agosto 12, 2012

Sonata de garbo para prenda e afins


às minhas poetas Nina Rizzi e Daniela Delias

O mundo não é rio grande,
não é fortaleza,
oceano bravio: extravio

o mapa do alvoroço
a mina de desassossego

o mundo não é terral
praia ou cassino
signo cristalino

o mundo não é lira
mar soprando acorde
a que brisa se destina?

há que florir o que se nina
mesmo que a tudo se dane 

sábado, agosto 11, 2012

epístola aos sargaços da madrugada


benditos sejam os descaminhos que habitam esta noite
que deles se faça a turva névoa a abençoar os indefesos

sexta-feira, agosto 10, 2012

S.O.S


1.
tudo tão repetido
eu suor
tu vício
amor ou suicídio

2.
ao próximo
ao semelhante
sinal de nascença
luz no semblante

3.
aos convictos
aos hermeneutas
arquitetar o ouro
na prosa impura

quinta-feira, agosto 09, 2012

haikais nada exemplares


1
a circunstância faz o ladrão
sem pressa, nem ocasião
basta mais um ás na mão

2
dante, camões e dirceu
canta ó poesia amorosa
no verso que não é meu

3
a noite espia bravia
gatos que vadiam
em lenta algaravia

4
do erário da flor do lácio
vou construindo
meu arcabouço literário

5
difícil conjugação me dirias
quanto te fitei tão blue
com uns olhos de capitu

quarta-feira, agosto 08, 2012

haikais exemplares


1
intentas jogos sutis
no arrepio da pele
sede que não cede

2
da tua flor macia
colher vestígios
doce supremacia

3
em júbilo e gáudio
guardar energia
no gozo de alegria

4
no lume da noite
atiçar os seios
de língua e açoite

5
orgia do dia:
penetrar-te
com euforia

7
pasmo de agitar
anseio e chuva
no vão da vulva

8
calo de sentir que
teus lábios
tocaram-me: falo