sexta-feira, agosto 24, 2012

uma prosa


Ensaio fugaz para um desatino mnemônico    

Como você sabe meus dias continuam iguais. Acordo cedo e acendo o cigarro. É a primeira epifania. A sagração de todas as mortes que podem advir daquela fumaça. Mas é assim mesmo, a morte está sempre nos calcanhares, porque não traga-la para o âmago do pulmão.
Dito isso, já estou me preparando para ir ao trabalho. O honesto trabalho que todos admiram, o serviçal do sistema, o aprumado senhor do capital que nos abençoa. No trânsito discuto, xingo, blasfemo: tudo isso com os vidros fechados. Porque aqui dentro um tumulto perambula pelas veias.
De todas as coisas que você sabe, eu nunca te escondi nada, nadinha. Algumas são simples devaneios, de fato não existem. O problema é que há muito não consigo discernir entre as coisas de fato, entre o ato e o sobressalto. Brincadeira, amor, eu tinha que aproveitar umas rimas nesta epístola para alegrar o enredo. Ou seria desenredo.
Como você sabe eu não consigo contar nada de forma linear. Tenho que por uns adereços, uns penduricalhos para dar ritmo. Outro dia li um poema de Rimbaud em que ele dizia “eu só escrevo silêncios’”. Sabe quando uma coisa mora dentro da gente, fixa residência nas retinas. Assim fiquei eu com o verso do poeta.
Assim como fico com todos os silêncios que me habitam e todos aqueles outros que ainda fazem eco nas retinas. Fico pensando se a morada do silêncio seria a retina. Ou será que ele perambula pelos ossos quando a gente caminha, se excita quando a gente faz sexo, fica triste quando a gente chora. O silêncio e os seus sentidos. Acho que vou compor um ensaio: “a gênese do silêncio sob a ótica de um entardecer”.
O que tu achas, amor? Como você sabe entardece rápido por aqui, do lado de cá. É aquela hora em que os girassóis desfilam seus alamares incendiando o horizonte. Tu lembras de quantos poemas eu fiz para ti sobre os girassóis, e do teu espanto quando me referi ao helianto (helianthus annuus), e tu não sabias que um outro nome designava esta planta caracterizada por possuir grandes inflorescências do tipo capítulo, cujo caule pode atingir até 3 metros de altura e apresenta filotaxia do tipo oposta cruzada, notável por "olhar" para o Sol, comportamento vegetal conhecido como heliotropismo.
 Tanta coisa para nada, não é amor. O breve conhecimento sobre o efêmero. Sei que tu percebes as coisas com eu, por isso te escrevo. Como se fosses a destinatária dos meus anelos ( eu ia escrever sonho, amor, mas anelo carrega uma simbologia maior).
Sabe aquele poema que tanto gostas do Neruda: “Te amo sem saber como, nem quando, nem onde, assim te amo porque não sei amar de outra maneira”. Encontrei-o numa edição antiga em um sebo, tem uns riscos de caneta em alguns poemas, mas mesmo assim comprei-o. Pensei em enviar junto com esta carta que estás lendo agora enquanto escrevo, porém desisti. Quero te entregar pessoalmente, sabe, sentir o livro e a textura da tua pele juntos.
Outra coisa: aquele filme “Os contos de Nova York”, consegui uma cópia para assistirmos. É tão belo, amor, com aquela canção do Procul Harum:  A Whiter Shade of Pale. Tenho tantas coisas para fazermos juntos que não cabe numa existência. Por isso a urgência das palavras.
E por falar em urgência, amor, tenho que finalizar. O telefone está tocando sem parar. Como você sabe, ainda não consegui me desvencilhar de muitas coisas. E elas rugem apressadas querendo companhia. Aquele tumulto, tu sabes, se enrosca lentamente: inexprimível.
A ti só aspiro em augusto retiro.

p.s. este final é Rimbaud (esqueci de por as aspas)
p.s.2 é um trecho da Canção da Torre Mais Alta

10 comentários:

Lídia Borges disse...


Li, reli!...

Há sempre tanto para fazer. E este tanto, de tanto que é, se faz na ânsia, na pressa, tão pouco.

Um beijo

Joelma B. disse...

Adoro, adoro cartas com este teor...

Assis, acredito em que o silêncio more nas retinas.

:*

Lara Amaral disse...

Adoro te ler em prosa, ainda vou reler seu livro.

Beijo.

Tania regina Contreiras disse...

Prosa tão cheia de poesia, com o mesmo semblante do poeta que amo!
Beijos,

dade amorim disse...

Conheci o texto, é lindo.
Beijo beijo.

Bípede Falante disse...

Oh, mas como gostei dessa carta em que ele a chama de amor e a guarda feito silêncio na retina...
Prosa boa é uma poesia!!
Beijoss

Vais disse...

Ei, Assis
uma prosa dessas arretadas

beijo

Eurico disse...

Entre as coisas que rugem apressadas, o oásis de tua proesia!

Daniela Delias disse...

Helianto. Que palavra bonita. Um espanto. Tão bonita quanto essa carta de amor.

Beijo, poetinha

Andrea de Godoy Neto disse...

linda prosa, tão poética...

beijooo