sábado, agosto 04, 2012

Pequena oração para as desditas e querências


Por ser o amor desvelo
Por ser o afeto enlevo

Por ser o bem dádiva
Por ser o mal ressalva

Por ser a água frescor
Por ser o vinho torpor

Por ser o mar presságio
Por ser o vento ágil

Por ser a fome escassez
Por ser a sede avidez

Por ser a morte destino
Por ser a vida caminho

sexta-feira, agosto 03, 2012

sonatina para eflúvios de seda e pele


te olhos em arrepio
em tranças muda
réstia de ocasião
tu absurdos bela
eu tonto anfitrião

quinta-feira, agosto 02, 2012

metapoema para o sal que arde na pele


hei de morrer nesta velha fotografia
com olhos pasmos de juventude
o fino lábio carente de palavras
as retinas ainda virgens

hei de morrer nesta velha fotografia
com esta face ainda imberbe
as mãos sem cataclismo
sem nunca ter te encontrado

quarta-feira, agosto 01, 2012

dois haikais


haikai de contrição

nobre é o tempo
a nos por cãs
em ilusões vãs

haikai de ocasião

tenho que ficar aceso
para queimar o acaso
na brasa do teu recato

terça-feira, julho 31, 2012

poeminha para margens barrentas


tenho nas mãos a lembrança de um cheiro
uns olhos que me percorrem sul e norte
e um fastio nos dentes em ebulição

segunda-feira, julho 30, 2012

Outra suíte para cercanias e orquídeas


Quero seguir até onde for o amor
Até sentir o perfume da pasárgada
A impalpável luz do alumbramento

Quero seguir até onde for o amor
Entre os abismos desta voragem
Doar-me corpo e verso em viagem

domingo, julho 29, 2012

poeminha involuntário


queria ser mallarmé
num lance rápido
estalando dedos e dados

sábado, julho 28, 2012

Suíte para cercanias e orquídeas


De que aurora tu és feita?
Onde pairas ilhargas sutis?
Frondosa primícia do querer

sexta-feira, julho 27, 2012

Para uma gramática de barros


(à guisa de metaplagio)

sistema límbico 
ambíguas faces
êxtase táctil
escritos primitivos

a cor das vogais
o latejar de andorinhas
uma pedra canora
olhar furado de nascentes:

a infância da língua

quinta-feira, julho 26, 2012

Poeminha de andorinha


Não consegui acender a palavra
Permaneço insone no verso ensandecido
Debulhando a imensidão ao largo desta hora

quarta-feira, julho 25, 2012

Ária de lábios em silente ortografia


Ah tu não adivinharias a manhã
Em que vicejaram teus perfumes
E minhas mãos tontas e sedentas
Buscaram-te na rota de um oásis

As rendas que ensejaram a pélvis
A corola deslindando os girassóis
Tua língua a inventar arrepios na
Lenta caligrafia de sílabas na pele

terça-feira, julho 24, 2012

sobre a tessitura do sonho e outros desalinhos


havia que tecer a palavra
ainda que fosse a última
e nela contivesse o sumo
a essência que foi estrada

havia que tecer a palavra
mesmo que fosse desatino
e nela contivesse o âmago
frio caos: único e palpável

segunda-feira, julho 23, 2012

outras trilogias


poeminha de essência

ela suscita
eu sucinto

haikai de predição

tão lua, lenda ao léu
incerta fortuna tua
canta a voz tão nua

poeminha de zero a zero

ela: zunia, zangava, zoava
eu: zen, zonzo, zíngaro



domingo, julho 22, 2012

último estudo sobre a leveza das estrelas


o amor lambe os olhos
faz cantoria aos ouvidos
brinca de lilás na língua
saltita de sol nas retinas

o amor mordisca orelha
faz cafuné no girassol
irrompe de sobressalto
a alegoria dos sentidos

o amor instiga as brisas
faz vereda nos cabelos
é pueril riso em desatino
afaga silêncio, desalinho

sábado, julho 21, 2012

sonatina para brusco e repentino lilás


esta vontade de existir
mais forte que palavra
me atiça ávido em vida
faz-me frêmito nas ruas

esta vontade de existir
irmana tépidos suores
acende-me luminárias
põe-me em cio, anseio

esta vontade de existir
mais forte que palavra
esta sede que não cede
tão nefasta: infesta-me

sexta-feira, julho 20, 2012

sob a fina caligrafia de um blues


quem não se sabe dor
é matéria rara
se achegam os espinhos
das rosas do caminho
acodem os açoites
do limo de tanta noite

quem não se sabe dor
é matéria rara
assim se percebem olhos
no avesso das lâminas
como mancha, nódoa
quem vive cego em anelos

quinta-feira, julho 19, 2012

auto de acontecimento para o amor de rude extravio


(ou quando a flor enfeitiça de visgo o suor das retinas)

ficou o não dito
a palavra enviesada
a nódoa no verso

o teu visgo de princesa
era fábula e se acabou

a nuvem brandiu seixo
a brisa atiçou vendaval

a fonte fez água e mágoa
como a cica que magoa

ficou o não dito
a palavra de acontecer
o que se foi do vir a ser

quarta-feira, julho 18, 2012

Dos poemas à espera de godot


dói-me o infortúnio n’alma
na calma pele de um gato
o medo que se manifesta
entre sina, azar e heresia

a crença para ungir o nada
a resistência entre párias
o eco de eras e never more
ódio às sextas: nunca mais

terça-feira, julho 17, 2012

haikai fugaz


exílios e alísios
oxalá uma guia
nessa ventania

segunda-feira, julho 16, 2012

trilogias


trilogia para a ausência

a língua do silêncio
a flor mais perene
a régua do impossível

trilogia para o nada

eu esqueço
eu não lembro
eu desconheço

trilogia para o invisível

cessa
passa
cega