sábado, setembro 28, 2013

Ária esguia para fogueira e ventania

Quero de ti mil amanhãs
O silvo que desprendes no olhar
Talvez o regaço dos lábios
O encontro de tantos silêncios
Mas alças a tua mão inquieta
Na avalanche de céu e nuvem
E deixas que o rubro incendeie
O vazio que permeia a distância
Desta nossa infância impossível

quinta-feira, setembro 26, 2013

3 poemas

Um outro epitáfio, bem outro

O que fui verdadeiramente
Não interessa
Ainda vão me marcar
Por causa de um verso
Que não pude evitar



Poema para dois tragos e um cigarro

Quero vícios
Que me
Levem
À morte
Pois a sorte
Eu dei a deus


Lembrando o verde de Leminski

Ocupei a grama
Céu tão bacana
Viva Copacabana

segunda-feira, setembro 23, 2013

Ária triste para a intimidade do vazio

ao poeta Antonio Ramos Rosa

Já era primavera quando tu partiste
Tão inadiável em ausência
E eu que vivo de esperas espontâneas
Preciso ser correspondido em silêncios



domingo, setembro 22, 2013

fragmento

eu queria copiar de mim
alguns pretéritos
esta minha insuficiência
do essencial
soprar iscas para o nada

sexta-feira, setembro 20, 2013

Para o poema em forma de oração

É necessário que eu peça escusas
Porque invejo a palavra luzidia
Tenho ganas pela aliteração
Suspiro pausas, zeugma, elipse
Para o verso zunir este há de ser
Em síntese ou sínquise

quinta-feira, setembro 19, 2013

Esboço para outro nascimento de Vênus

De qual mistério se veste
A luminescência da tua pele
Com quantas sílabas sopram
Os eflúvios destes lábios
De que sonora paisagem
Queima a penugem do braço
Para onde finda teu espasmo
Neste olhar de ninfa ao acaso

terça-feira, setembro 17, 2013

Uma outra ciranda para ninfa e lilases

Quisera eu entender sobre a magia
Quiçá versar sobre ninhos
Nada me cabe nesta andança de
Espantalho espantado em arrebóis
Meus folguedos são tristes labaredas
Este insone silêncio sem significado
A luz que não se ordena na retina
Fragmentos de ausência, vazios
O caos que me insufla ao nada

sábado, setembro 14, 2013

Enquanto fio zeloso a intempérie do olhar

Não me importa mais nada
Tenho silêncio e ausência
Suficientes para eternidade

sexta-feira, setembro 13, 2013

Receita para provocar dessemelhanças

Não eras pássaro
Não, não eras
Mas invitava asas
E sorvia rosas
Silêncio de orvalho
Inapreensível voo


quinta-feira, setembro 12, 2013

Canção para zelo e rude descaminho

Quando é que vai acontecer
Na saliência deste espanto
A constatação da ausência:
A delicadeza do que não seremos 

quarta-feira, setembro 11, 2013

Este diário de melancolia é o meu corpo

Sonho com dentes e eles doem
São tristes os caninos
E não há flores nos molares
Tudo me parte
Arde-me a mandíbula
Sob o fervor dos incisivos

terça-feira, setembro 10, 2013

1 máscara e outros eus

toda vez que eu passo por ela
me destila silêncio pelas mãos
os olhos ficam empedernidos
caminho em passos de nuvem
ela me furta todas as palavras
e deixa o abandono nos lábios
sinto-me oblíquo como sonho

segunda-feira, setembro 09, 2013

No fundo da noite o poema ladra dentro de mim

Eu perdi um amigo dobrando a esquina
Isso faz muito tempo, mas arranha
No meu peito como um coice
Ele gostava de soprar nuvens
Em novelos esfumaçados
E se oferecia em repasto
Ao zelo dos olhares
De tantas viagens
Paraísos artificiais em ondina
Meninas, livros, vinis
O porto, o cristo, a barra
Na saliência de rosto e sal
Eu perdi um amigo dobrando a esquina
Ainda com o trago e o copo
Engasgados de silêncio e ausência
No meu peito como um coice
Um cheiro de nuvem talvez
Coisas assim escritas podem
Fazer sentido, a existência não

domingo, setembro 08, 2013

Ária pequenina para nomear espantos

p/ Lara

Por ora nado em brisas
Neste quadro de cor
Mais bela

Desperta-me este recato
De solar realeza
A ilha do olho dela

sexta-feira, setembro 06, 2013

Partita de louvor ao teu feitio castanho

Na clara manhã de vidro
Tudo é silêncio e olvido
Há incenso nos sentidos
Este olhar de porto vívido
Rogo tua mão ainda lívido
Ao sabor do simples asilo
O saber em sede e faminto
Louvar o nada em que levito

terça-feira, setembro 03, 2013

Ciranda de infância e inconfidência

Desses sonhos mais felizes
Que não tivemos
Quero uma metáfora indócil
Quem sabe o musgo da janela
O convencimento da solidão
A tentativa inútil do silêncio
Este mar sem profundidade
O esplendor que nada reflete
O veludo de uma carne
A fugitiva lâmina do vento
O efêmero do acontecido
E o cansaço do que nunca virá

sexta-feira, agosto 30, 2013

Por que você escreve poesia?

(à guisa de um metaplagio de Orhan Pamuk)

Porque eu cresci lendo poesia
Porque não consigo me relacionar com o mundo de outra maneira
Porque acho encantador enfeitiçar palavras
Porque um dia me disseram que eu era poeta
Por que eu acredito que posso ser poeta
Porque meus amigos são poetas
Porque o verso atiça a minha curiosidade
Porque a curiosidade me leva às palavras
Porque o mundo pode respirar melhor
Porque eu posso respirar melhor
Porque eu me imponho leituras
Porque eu me repito e a poesia aceita
Porque é uma forma de amar as pessoas
Porque é uma forma de eu atrair o amor
Porque um poema me fez descobrir o amor
Porque há um vazio que não me cabe
Porque há uma ausência a se descortinar
Porque o silêncio soluça com o verbo
Porque o verbo é a minha carne que arde

quinta-feira, agosto 29, 2013

Litania para a graça de uma Gioconda

Eu vislumbro o tygre de blake
Num acorde furioso de beethoven
A solidão é mesmo um coice
Atiça todos os raios de rimbaud
Ainda não deu meia-noite e já
Me rugem fantasmas da aurora
Só teu rosto me salva do degredo
Do abismo aberto de mim mesmo

terça-feira, agosto 27, 2013

todos os rostos, o rosto

eu procuraria na rota do vento
a silhueta mais sutil do pássaro
entrementes devoraria a saliva
na sílaba luminosa de uns lábios

eu procuraria em todos rostos
atormentado, atônito, aturdido
com esta balbúrdia de olhares
do ser que navega para o nada

eu invocaria o silêncio mais impuro
para compor a ausência longínqua
até reverdecer todas as palavras
no cardume de nuvens desta tarde

domingo, agosto 25, 2013

Sobre inércias, inutilidades e afins

Não te negues aos silêncios
A este ar que atiça a face
Que cuido das ausências
Deste incessante partir
Que me queima os olhos