domingo, julho 15, 2012

sonata elegante para o alvorecer


eu não sei como nascem os segredos
nem a distancia que o voo pode alcançar
sequer a maciez do livro sobre o seio
só sei da ausência, do vazio, da exiguidade
da imprecisão do verbo para (te) nomear

inspirado neste poema de Roberta Tostes Daniel

Como nascem os segredos

Na tarde em que um livro,
Ave pousada sobre o seio,
Dormiu e amou
Em teu nome,
Ausência

(Um voo, um sonho).


sábado, julho 14, 2012

da série sem título ou esboço para antemanhãs


quando este dia esgotar suas horas
e todas lembranças forem extintas
e peixes nadarem em águas iguais
então despertarei com as sombras
com as sobras do que foi saudade
com o azeviche deste olho pássaro
tão inútil como os passos na solidão

sexta-feira, julho 13, 2012

play it again


ainda efervescente
ela me olhou e disse:
toque-me outra vez

e a minha língua
rugiu em sustenidos

quinta-feira, julho 12, 2012

ária para voo de asa breve


mergulha o silencio
em meus olhos
e liberta a alma
do pássaro que
se interroga
em minha mão 

quarta-feira, julho 11, 2012

oração para artefatos da língua


a moça comeu o poema
e todo o silêncio
que ali dentro havia

a moça comeu rima
aliteração, prosódia
métrica, sinestesia

a moça comeu o poema
em todo sentido absoluto
eufemismo, anacoluto

terça-feira, julho 10, 2012

poeminha para liturgia noturna


há tanto tesouro em tua face
pérola, turmalina, esmeralda
que orbito lua em teu enlace

segunda-feira, julho 09, 2012

suíte burlesca para um diálogo com a ausência


foste tu nesta distância de muitos quilômetros
a ilha, a quimera, o oásis, pasárgada dos dias
a cotovia desavisada que insinuou a primavera
foste tu que me impuseste silencio e ausência
nesta seara de corpo que se move em frêmitos
no olho arredio que já se despediu das estrelas
foste tu, este eterno assovio em minhas retinas
a mão que agitou o delicado trovão da espera

domingo, julho 08, 2012

outra balada de impulso para anjos em movimento


ainda menino
peguei desobediência
com a palavra
- assim como incitar
os visgos do vento -
atropelando a sina,
as sílabas e a sintaxe
neste descompasso
de verbo, versos e nuvens

sábado, julho 07, 2012

Poeminha para os despojos da antemanhã


Sou devoto dos cimos e das auroras
Tenho em mim tendências de elevação
Às vezes me confundo em nuvem

Viajo no sobressalto do horizonte
Enlanguescido no despertencimento
Só quando azul me percebo desvario

Todo rumor me ganha rumos de vento
Gorjeio saliva para os teus despertares
Dou braços ao silêncio se me embaraço

sexta-feira, julho 06, 2012

ária de promessa e bem-querer


vem, que a casa é tua enquanto te amo
depois ganhas asas para outro encanto

terça-feira, julho 03, 2012

Poeminha para gota de orvalho em nua correnteza


Amor, teu corpo evoca rosas
carpelos, sépalas, pétalas
Sonoridade de rio, de lírio

domingo, julho 01, 2012

como se fosse um fade out em primeiro plano


eu não apareci em nenhum filme
não protagonizei uma cena de amor
sequer me deram créditos no the end

quando cerraram as cortinas
eu continuei pálido na poltrona
numa fileira de longos vazios

você pode achar até tragédia
mas não, esta lâmina na mão
não me cortará o pulso

ainda vou esperar a próxima sessão
quem sabe das cãs se faça a luz

sábado, junho 30, 2012

ária para quando o horizonte engole o sol


trago esse árido choro
que não corre
e nega a seca face
que foge e não é chão
e os pés adejam nuvem

trago esse árido choro
que naufraga
na areia das retinas
que é barco e leva
a sina que se desvela

trago esse árido choro
como ácido para a vida

sexta-feira, junho 29, 2012

Tudo é distância na lavra da imensidão


Desenho a palavra rio
Na correnteza de sede
Exausto à tua margem

quinta-feira, junho 28, 2012

Metaplagio de ramos, rosa e inventos


O poeta escreveu
Que esperava
Ser aberto por
Uma palavra

Eu nada espero
Das dádivas
De um verbo

Queria apenas
Se pedir fosse
O rasgo rápido
Desta lâmina

Sutil e afiada
Que acendes
Entre os dentes

quarta-feira, junho 27, 2012

Posologia: vide bula


Arrisque-se mais
A vida é isto ou aquilo
Não há meio termo

É raso ou abismo
É atraso ou urgência
É tumulto ou silêncio




terça-feira, junho 26, 2012

bestiário


a inocência me contempla
de uma das suas muitas esquinas
como um cão que não late
e vez em quando abana o rabo
a inocência me contempla
entre pássaros, ubíquos passos
a inocência é este bicho
domesticado nos meus dentes

segunda-feira, junho 25, 2012

Rapsódia para a superfície da voz e do silêncio


Amor, teu desejo me consome as retinas,
as palavras, os pulmões, toda a pele
não me deixa nomear as coisas:
me deixa clandestino ao espelho.

sábado, junho 23, 2012

balada de impulso para anjos em movimento


com os artefatos da manhã
hei de erguer um templo
onde depositarei silente
o que me resta nestes olhos
vermelhos, vazios e vadios
atormentados de vastidão

quarta-feira, junho 20, 2012

Poema perdido em caderno de cinema


escreva um roteiro para eu te amar
meio truffaut, meio godard
uma novela vaga, duas ou três coisas
ou viva sua vida sem me acossar