sábado, dezembro 13, 2008

poema de desengano II

A tristeza que hoje impera
De este cantar tem sido
Alvoroço de naus em terra
Murmúrio de estar infindo

Neste quadro que regressa
Aurora de lúcidas esperas
Fico eu a vagar impreciso
Avatar de impossíveis eras

sexta-feira, dezembro 12, 2008

poema de desengano

acostumei-me as poucas coisas:
a vida neste vagar,
as frases soltas,
o rumor e o silêncio,
e esta calma solidão
que comigo dorme agarrada.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

poema de segunda-feira

Não é sem assombro
que desperto enluarado
invadido por reticências
de parágrafos inteiros
na solidão da página nua

terça-feira, outubro 21, 2008

CADENTE

Nada perdura mais
que o silêncio
desta poesia

e também
o seu oposto.

sexta-feira, outubro 03, 2008

fantasia para o menestrel que perdeu seu ginete

o campo verde ardia
e cintilivam raios
na balbúrdia da manhã

de repente tudo ficou só
a lança e um cheiro remoto
de amores do amanhã

sábado, setembro 20, 2008

Quando Deus precisar de mim



Hoje me dei conta que Deus pode precisar de mim. Não por uma revelação, uma súbita iluminação ou qualquer coisa transcendental. Mas simplesmente por uma constatação: o fato de eu estar vivo. Senti que Deus podia precisar dos meus olhos, dos meus gestos e das minhas palavras. Foi quando me abateu uma tristeza profunda, avassaladora.
Porque eu não saberia como ajudá-lo. A minha ignorância é tamanha que não consigo me desprender dela. Incorporou-se a mim como uma carapaça. E se eu tentar sair desse dentro em que vivo instalado não me reconheço. O meu existir deixa de ter sentido.
Estou tão próximo de mim que não posso me enxergar por completo. E às vezes, o que é paradoxal, contento-me com essa aparência que me forjei. Mas hoje senti que Deus podia precisar de mim e eu nada conheço dessas missões. Tudo o que conheço são caminhos desolados, paisagens remotas de homens sozinhos. A minha fome, a minha sede, a minha angústia. Será que Deus, na sua infinita misericórdia, vai entender isso quando precisar de mim.