domingo, outubro 21, 2012

haikai eye in the sky


a palavra é tão doce e hoje
amanheci azul, há
melhor motivo para um blues

sábado, outubro 20, 2012

quase néctar, quase ambrosia


morre este meu silêncio
na abóbada da tua boca
o trânsito atônito de luas
das nossas línguas nuas

sexta-feira, outubro 19, 2012

Haikai de alumbramento


Qualquer palavra distraída
Nesta geografia de jamais
Olhos, pernas, teus demais


quinta-feira, outubro 18, 2012

Canção de ninar libélulas e madressilvas


Eu continuo aqui cultivando arrebóis
Alimentando os girassóis de orvalho
Neste inefável contemplar do porvir

Enquanto não me vem os teus olhos
A saliva e a sílaba são o amálgama
Do desmedido soluço de uma estrela

quarta-feira, outubro 17, 2012

Auto de imolação para invólucros imarcescíveis


As horas não duraram tanto quanto teu céu
A impor estrelas no bulício de mãos
O cisco dos astros nos olhos, o visgo, a cica
E aquela lua em teu seio suplicando dentes

terça-feira, outubro 16, 2012

antipoema para uso tópico II


O poema vive de alforria
Palavra solta, asa vadia
Cataclismo do verbo
Metáfora que rumina
Decerto não cabe na lira
Deste poeta que cisma

segunda-feira, outubro 15, 2012

quase haikai, quase leminski


um dia te esqueço completamente
no nome, na carne, na alma
mas isso tudo é tão lento, tão lento

domingo, outubro 14, 2012

quase presságio, quase invento


já não contemplo arrebóis
arde cálida a tarde
como você me sonha em tua saudade?

sábado, outubro 13, 2012

quase Gioconda, quase Marylin Monroe


hoje vi o sol como nunca tivesse visto antes
era como se todo brilho se fosse de repente
naquele sorriso de mona lisa incandescente


sexta-feira, outubro 12, 2012

notas leves para um diário minimalista III


um soluço me atravessa
e logo se evade:
saudade


quinta-feira, outubro 11, 2012

quase tudo, quase fim


nem bem me chega e eu findo
tão fundo eu fito o meu bem
e esse querer tão aflito

há dias que o sol não medra
não vicejam os arrebóis
nada atua em favor do amor

nenhuma palavra crisálida
nenhuma asa em alvoroço
nenhuma casa é repouso

nem bem me chega eu findo
ao verso me dou em olvido
lágrima de eterna remissão

há dias que não me corre rio
nada me cede a margem
não há correnteza ou arrepio

nenhuma imagem em catarse
nenhuma plenitude escrita
nenhuma alvíssara me arde

quarta-feira, outubro 10, 2012

tratado sucinto sobre a forma da nuvem II



Não te conheço a alma dos anelos
Apenas decomponho frases, anseios
E neste périplo tonto em tanto céu
Por rotas, bússolas, ácidos extravios
Me curvo aos teus lábios em desafio

terça-feira, outubro 09, 2012

notas leves para um diário minimalista II


Não precisa muito pra dizer te amo
Às vezes tudo é pouco, tudo é nada
Às vezes o mínimo é o que basta

segunda-feira, outubro 08, 2012

notas leves para um diário minimalista


para Karinne Santiago


Esta sede que me invocas
Debruçada sobre o mar
Atiça ondas e não és maga

sábado, outubro 06, 2012

poeminha para acontecer desalinhos


quando a poesia te amanhece
em sutil e inconsútil disfarce
voo para ti em brisas e lilases
no emaranhado de uma frase

sexta-feira, outubro 05, 2012

canto agônico no jardim do Hades


o homem que te amava morreu
foi para o mar, atirou-se nuvens
fez trilho e trem, faca nos olhos
lamina no pulso, flor no pulmão
persignou disparo, cancro raro
pó e cicuta, arsênico e cianeto
serpente do Nilo, corda de forca
invadiu sinal, perdeu o elevador
flutuou na ponte, imolou serrote
ardeu o coração, bala na fronte
espera rijo a nau do Aqueronte

quinta-feira, outubro 04, 2012

Antipoema para adorno de cera


Mais um dia, outro dia
E eu tão só, sozinho
Asa sem passarinho

quarta-feira, outubro 03, 2012

Haikai de entrega


Ouve os elogios do amor
A nuvem canta ao ouvido
Nestes versos sem sentido

terça-feira, outubro 02, 2012

Poeminha tão besta, tão besta


Tanta flor havia ali
No poema no caqui
Os teus olhos parati
O soslaio para mim

segunda-feira, outubro 01, 2012

solilóquio pra cacaso


minha pátria é arquipélago de nadas
um mergulho no vazio
o bolso cheio de abismos