árvore da poesia
Para Toda Literatura
sexta-feira, agosto 10, 2012
S.O.S
1.
tudo tão repetido
eu suor
tu vício
amor ou suicídio
2.
ao próximo
ao semelhante
sinal de nascença
luz no semblante
3.
aos convictos
aos hermeneutas
arquitetar o ouro
na prosa impura
quinta-feira, agosto 09, 2012
haikais nada exemplares
1
a circunstância faz o ladrão
sem pressa, nem ocasião
basta mais um ás na mão
2
dante, camões e dirceu
canta ó poesia amorosa
no verso que não é meu
3
a noite espia bravia
gatos que vadiam
em lenta algaravia
4
do erário da flor do lácio
vou construindo
meu arcabouço literário
5
difícil conjugação me dirias
quanto te fitei tão blue
com uns olhos de capitu
quarta-feira, agosto 08, 2012
haikais exemplares
1
intentas jogos sutis
no arrepio da pele
sede que não cede
2
da tua flor macia
colher vestígios
doce supremacia
3
em júbilo e gáudio
guardar energia
no gozo de alegria
4
no lume da noite
atiçar os seios
de língua e açoite
5
orgia do dia:
penetrar-te
com euforia
7
pasmo de agitar
anseio e chuva
no vão da vulva
8
calo de sentir que
teus lábios
tocaram-me: falo
terça-feira, agosto 07, 2012
ária para relicário de perseverança
as coisas do mundo
mãos, pés, abraços
as coisas do mundo
chão, mesa, madeira
as coisas do mundo
dor, sentido, cheiros
as coisas do mundo
junco, barro, poeira
as coisas do mundo
enfado, fastio, tédio
as coisas do mundo
pedra, nuvem, seixo
as coisas do mundo
aflição, ânsia, aperto
as coisas do mundo
chuva, lago, ribeirão
as coisas do mundo
afeto, apego, paixão
as coisas do mundo
flor, céu, tempestade
as coisas do mundo
afago, lisonja, mimo
as coisas do mundo
livros, brisa, rebento
as coisas do mundo
lapso, âmago, razão
as coisas do mundo
rede, vereda, sertão
segunda-feira, agosto 06, 2012
ensaio de remissão ao silêncio da estrela
assisto ao trânsito tardio dos girassóis
agora eles se curvam ao ocaso
num rito de alvíssaras sem mesura
breve será hora de recolher os olhos
e entregar-me sem destino à tua noite
nesta estranha prece que teces com a
infinitude de sílabas que desce do orbe
domingo, agosto 05, 2012
Haikais obsoletos
*
o amor é descoberta
luz na janela
e a porta meio aberta
*
não deu, não deu
disse ela: regar
flores no meu breu
*
a nuvem se esquece
no soslaio
em líquida prece
sábado, agosto 04, 2012
Pequena oração para as desditas e querências
Por ser o amor desvelo
Por ser o afeto enlevo
Por ser o bem dádiva
Por ser o mal ressalva
Por ser a água frescor
Por ser o vinho torpor
Por ser o mar presságio
Por ser o vento ágil
Por ser a fome escassez
Por ser a sede avidez
Por ser a morte destino
Por ser a vida caminho
sexta-feira, agosto 03, 2012
sonatina para eflúvios de seda e pele
te olhos em arrepio
em tranças muda
réstia de ocasião
tu absurdos bela
eu tonto anfitrião
quinta-feira, agosto 02, 2012
metapoema para o sal que arde na pele
hei de morrer nesta velha fotografia
com olhos pasmos de juventude
o fino lábio carente de palavras
as retinas ainda virgens
hei de morrer nesta velha fotografia
com esta face ainda imberbe
as mãos sem cataclismo
sem nunca ter te encontrado
quarta-feira, agosto 01, 2012
dois haikais
haikai de contrição
nobre é o tempo
a nos por cãs
em ilusões vãs
haikai de ocasião
tenho que ficar aceso
para queimar o acaso
na brasa do teu recato
terça-feira, julho 31, 2012
poeminha para margens barrentas
tenho nas mãos a lembrança de um cheiro
uns olhos que me percorrem sul e norte
e um fastio nos dentes em ebulição
segunda-feira, julho 30, 2012
Outra suíte para cercanias e orquídeas
Quero seguir até onde for o amor
Até sentir o perfume da pasárgada
A impalpável luz do alumbramento
Quero seguir até onde for o amor
Entre os abismos desta voragem
Doar-me corpo e verso em viagem
domingo, julho 29, 2012
poeminha involuntário
queria ser mallarmé
num lance rápido
estalando dedos e dados
sábado, julho 28, 2012
Suíte para cercanias e orquídeas
De que aurora tu és feita?
Onde pairas ilhargas sutis?
Frondosa primícia do querer
sexta-feira, julho 27, 2012
Para uma gramática de barros
(à guisa de metaplagio)
sistema límbico
ambíguas faces
êxtase táctil
escritos primitivos
a cor das vogais
o latejar de andorinhas
uma pedra canora
olhar furado de nascentes:
a infância da língua
quinta-feira, julho 26, 2012
Poeminha de andorinha
Não consegui acender a palavra
Permaneço insone no verso ensandecido
Debulhando a imensidão ao largo desta hora
quarta-feira, julho 25, 2012
Ária de lábios em silente ortografia
Ah tu não adivinharias a manhã
Em que vicejaram teus perfumes
E minhas mãos tontas e sedentas
Buscaram-te na rota de um oásis
As rendas que ensejaram a pélvis
A corola deslindando os girassóis
Tua língua a inventar arrepios na
Lenta caligrafia de sílabas na pele
terça-feira, julho 24, 2012
sobre a tessitura do sonho e outros desalinhos
havia que tecer a palavra
ainda que fosse a última
e nela contivesse o sumo
a essência que foi estrada
havia que tecer a palavra
mesmo que fosse desatino
e nela contivesse o âmago
frio caos: único e palpável
segunda-feira, julho 23, 2012
outras trilogias
poeminha de essência
ela suscita
eu sucinto
haikai de predição
tão lua, lenda ao léu
incerta fortuna tua
canta a voz tão nua
poeminha de zero a zero
ela: zunia, zangava, zoava
eu: zen, zonzo, zíngaro
domingo, julho 22, 2012
último estudo sobre a leveza das estrelas
o amor lambe os olhos
faz cantoria aos ouvidos
brinca de lilás na língua
saltita de sol nas retinas
o amor mordisca orelha
faz cafuné no girassol
irrompe de sobressalto
a alegoria dos sentidos
o amor instiga as brisas
faz vereda nos cabelos
é pueril riso em desatino
afaga silêncio, desalinho
sábado, julho 21, 2012
sonatina para brusco e repentino lilás
esta vontade de existir
mais forte que palavra
me atiça ávido em vida
faz-me frêmito nas ruas
esta vontade de existir
irmana tépidos suores
acende-me luminárias
põe-me em cio, anseio
esta vontade de existir
mais forte que palavra
esta sede que não cede
tão nefasta: infesta-me
sexta-feira, julho 20, 2012
sob a fina caligrafia de um blues
quem não se sabe dor
é matéria rara
se achegam os espinhos
das rosas do caminho
acodem os açoites
do limo de tanta noite
quem não se sabe dor
é matéria rara
assim se percebem olhos
no avesso das lâminas
como mancha, nódoa
quem vive cego em anelos
quinta-feira, julho 19, 2012
auto de acontecimento para o amor de rude extravio
(ou quando a flor enfeitiça de visgo o suor das retinas)
ficou o não dito
a palavra enviesada
a nódoa no verso
o teu visgo de princesa
era fábula e se acabou
a nuvem brandiu seixo
a brisa atiçou vendaval
a fonte fez água e mágoa
como a cica que magoa
ficou o não dito
a palavra de acontecer
o que se foi do vir a ser
quarta-feira, julho 18, 2012
Dos poemas à espera de godot
dói-me o infortúnio n’alma
na calma pele de um gato
o medo que se manifesta
entre sina, azar e heresia
a crença para ungir o nada
a resistência entre párias
o eco de eras e never more
ódio às sextas: nunca mais
terça-feira, julho 17, 2012
haikai fugaz
exílios e alísios
oxalá uma guia
nessa ventania
segunda-feira, julho 16, 2012
trilogias
trilogia para a ausência
a língua do silêncio
a flor mais perene
a régua do impossível
trilogia para o nada
eu esqueço
eu não lembro
eu desconheço
trilogia para o invisível
cessa
passa
cega
domingo, julho 15, 2012
sonata elegante para o alvorecer
eu não sei como nascem os segredos
nem a distancia que o voo pode alcançar
sequer a maciez do livro sobre o seio
só sei da ausência, do vazio, da exiguidade
da imprecisão do verbo para (te) nomear
inspirado neste poema de Roberta Tostes Daniel
Como nascem os segredos
Na tarde em que um livro,
Ave pousada sobre o seio,
Dormiu e amou
Em teu nome,
Ausência
(Um voo, um sonho).
sábado, julho 14, 2012
da série sem título ou esboço para antemanhãs
quando este dia esgotar suas horas
e todas lembranças forem extintas
e peixes nadarem em águas iguais
então despertarei com as sombras
com as sobras do que foi saudade
com o azeviche deste olho pássaro
tão inútil como os passos na solidão
sexta-feira, julho 13, 2012
play it again
ainda efervescente
ela me olhou e disse:
toque-me outra vez
e a minha língua
rugiu em sustenidos
quinta-feira, julho 12, 2012
ária para voo de asa breve
mergulha o silencio
em meus olhos
e liberta a alma
do pássaro que
se interroga
em minha mão
quarta-feira, julho 11, 2012
oração para artefatos da língua
a moça comeu o poema
e todo o silêncio
que ali dentro havia
a moça comeu rima
aliteração, prosódia
métrica, sinestesia
a moça comeu o poema
em todo sentido absoluto
eufemismo, anacoluto
terça-feira, julho 10, 2012
poeminha para liturgia noturna
há tanto tesouro em tua face
pérola, turmalina, esmeralda
que orbito lua em teu enlace
segunda-feira, julho 09, 2012
suíte burlesca para um diálogo com a ausência
foste tu nesta distância de muitos quilômetros
a ilha, a quimera, o oásis, pasárgada dos dias
a cotovia desavisada que insinuou a primavera
foste tu que me impuseste silencio e ausência
nesta seara de corpo que se move em frêmitos
no olho arredio que já se despediu das estrelas
foste tu, este eterno assovio em minhas retinas
a mão que agitou o delicado trovão da espera
domingo, julho 08, 2012
outra balada de impulso para anjos em movimento
ainda menino
peguei desobediência
com a palavra
- assim como incitar
os visgos do vento -
atropelando a sina,
as sílabas e a sintaxe
neste descompasso
de verbo, versos e nuvens
sábado, julho 07, 2012
Poeminha para os despojos da antemanhã
Sou devoto dos cimos e das auroras
Tenho em mim tendências de elevação
Às vezes me confundo em nuvem
Viajo no sobressalto do horizonte
Enlanguescido no despertencimento
Só quando azul me percebo desvario
Todo rumor me ganha rumos de vento
Gorjeio saliva para os teus despertares
Dou braços ao silêncio se me embaraço
sexta-feira, julho 06, 2012
ária de promessa e bem-querer
vem, que a casa é tua enquanto te amo
depois ganhas asas para outro encanto
terça-feira, julho 03, 2012
Poeminha para gota de orvalho em nua correnteza
Amor, teu corpo evoca rosas
carpelos, sépalas, pétalas
Sonoridade de rio, de lírio
domingo, julho 01, 2012
como se fosse um fade out em primeiro plano
eu não apareci em nenhum filme
não protagonizei uma cena de amor
sequer me deram créditos no the end
quando cerraram as cortinas
eu continuei pálido na poltrona
numa fileira de longos vazios
você pode achar até tragédia
mas não, esta lâmina na mão
não me cortará o pulso
ainda vou esperar a próxima sessão
quem sabe das cãs se faça a luz
sábado, junho 30, 2012
ária para quando o horizonte engole o sol
trago esse árido choro
que não corre
e nega a seca face
que foge e não é chão
e os pés adejam nuvem
trago esse árido choro
que naufraga
na areia das retinas
que é barco e leva
a sina que se desvela
trago esse árido choro
como ácido para a vida
sexta-feira, junho 29, 2012
Tudo é distância na lavra da imensidão
Desenho a palavra rio
Na correnteza de sede
Exausto à tua margem
quinta-feira, junho 28, 2012
Metaplagio de ramos, rosa e inventos
O poeta escreveu
Que esperava
Ser aberto por
Uma palavra
Eu nada espero
Das dádivas
De um verbo
Queria apenas
Se pedir fosse
O rasgo rápido
Desta lâmina
Sutil e afiada
Que acendes
Entre os dentes
quarta-feira, junho 27, 2012
Posologia: vide bula
Arrisque-se mais
A vida é isto ou aquilo
Não há meio termo
É raso ou abismo
É atraso ou urgência
É tumulto ou silêncio
terça-feira, junho 26, 2012
bestiário
a inocência me contempla
de uma das suas muitas esquinas
como um cão que não late
e vez em quando abana o rabo
a inocência me contempla
entre pássaros, ubíquos passos
a inocência é este bicho
domesticado nos meus dentes
segunda-feira, junho 25, 2012
Rapsódia para a superfície da voz e do silêncio
Amor, teu desejo me consome as retinas,
as palavras, os pulmões, toda a pele
não me deixa nomear as coisas:
me deixa clandestino ao espelho.
sábado, junho 23, 2012
balada de impulso para anjos em movimento
com os artefatos da manhã
hei de erguer um templo
onde depositarei silente
o que me resta nestes olhos
vermelhos, vazios e vadios
atormentados de vastidão
quarta-feira, junho 20, 2012
Poema perdido em caderno de cinema
escreva um roteiro para eu te amar
meio truffaut, meio godard
uma novela vaga, duas ou três coisas
ou viva sua vida sem me acossar
terça-feira, junho 19, 2012
Três, trois, three
Escorço
Escrevo atormentado
Por abismos
Quanto mais caio
Mais visgo
Suíte agreste para ventanias d’além mar
Uma noite quando lia atento
Une Saison en Enfer
Exultavam em mim arrepios
E uma cotovia desavisada
Pousando nos umbrais
Cantou never more, never more
E eu nunca mais fui o mesmo
Nunca mais.
Rapsódia fugaz para polaroides urbanas
p/ Nina Rizzi
um verso de rimbaud
um beijo de esquina
língua, saliva, sílaba
pescaria, poesia
lâminas no asfalto
estes versos bregas
deixa-me cantar piaf
à sombra do laranjal
o futuro que és praia
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