quarta-feira, agosto 08, 2012

haikais exemplares


1
intentas jogos sutis
no arrepio da pele
sede que não cede

2
da tua flor macia
colher vestígios
doce supremacia

3
em júbilo e gáudio
guardar energia
no gozo de alegria

4
no lume da noite
atiçar os seios
de língua e açoite

5
orgia do dia:
penetrar-te
com euforia

7
pasmo de agitar
anseio e chuva
no vão da vulva

8
calo de sentir que
teus lábios
tocaram-me: falo

terça-feira, agosto 07, 2012

ária para relicário de perseverança


as coisas do mundo
mãos, pés, abraços
as coisas do mundo
chão, mesa, madeira

as coisas do mundo
dor, sentido, cheiros
as coisas do mundo
junco, barro, poeira

as coisas do mundo
enfado, fastio, tédio
as coisas do mundo
pedra, nuvem, seixo

as coisas do mundo
aflição, ânsia, aperto
as coisas do mundo
chuva, lago, ribeirão

as coisas do mundo
afeto, apego, paixão
as coisas do mundo
flor, céu, tempestade

as coisas do mundo
afago, lisonja, mimo
as coisas do mundo
livros, brisa, rebento

as coisas do mundo
lapso, âmago, razão
as coisas do mundo
rede, vereda, sertão

segunda-feira, agosto 06, 2012

ensaio de remissão ao silêncio da estrela


assisto ao trânsito tardio dos girassóis
agora eles se curvam ao ocaso
num rito de alvíssaras sem mesura
breve será hora de recolher os olhos
e entregar-me sem destino à tua noite
nesta estranha prece que teces com a
infinitude de sílabas que desce do orbe

domingo, agosto 05, 2012

Haikais obsoletos


*
o amor é descoberta
luz na janela
e a porta meio aberta

*
não deu, não deu
disse ela: regar
flores no meu breu

*
a nuvem se esquece
no soslaio
em líquida prece

sábado, agosto 04, 2012

Pequena oração para as desditas e querências


Por ser o amor desvelo
Por ser o afeto enlevo

Por ser o bem dádiva
Por ser o mal ressalva

Por ser a água frescor
Por ser o vinho torpor

Por ser o mar presságio
Por ser o vento ágil

Por ser a fome escassez
Por ser a sede avidez

Por ser a morte destino
Por ser a vida caminho

sexta-feira, agosto 03, 2012

sonatina para eflúvios de seda e pele


te olhos em arrepio
em tranças muda
réstia de ocasião
tu absurdos bela
eu tonto anfitrião

quinta-feira, agosto 02, 2012

metapoema para o sal que arde na pele


hei de morrer nesta velha fotografia
com olhos pasmos de juventude
o fino lábio carente de palavras
as retinas ainda virgens

hei de morrer nesta velha fotografia
com esta face ainda imberbe
as mãos sem cataclismo
sem nunca ter te encontrado

quarta-feira, agosto 01, 2012

dois haikais


haikai de contrição

nobre é o tempo
a nos por cãs
em ilusões vãs

haikai de ocasião

tenho que ficar aceso
para queimar o acaso
na brasa do teu recato

terça-feira, julho 31, 2012

poeminha para margens barrentas


tenho nas mãos a lembrança de um cheiro
uns olhos que me percorrem sul e norte
e um fastio nos dentes em ebulição

segunda-feira, julho 30, 2012

Outra suíte para cercanias e orquídeas


Quero seguir até onde for o amor
Até sentir o perfume da pasárgada
A impalpável luz do alumbramento

Quero seguir até onde for o amor
Entre os abismos desta voragem
Doar-me corpo e verso em viagem

domingo, julho 29, 2012

poeminha involuntário


queria ser mallarmé
num lance rápido
estalando dedos e dados

sábado, julho 28, 2012

Suíte para cercanias e orquídeas


De que aurora tu és feita?
Onde pairas ilhargas sutis?
Frondosa primícia do querer

sexta-feira, julho 27, 2012

Para uma gramática de barros


(à guisa de metaplagio)

sistema límbico 
ambíguas faces
êxtase táctil
escritos primitivos

a cor das vogais
o latejar de andorinhas
uma pedra canora
olhar furado de nascentes:

a infância da língua

quinta-feira, julho 26, 2012

Poeminha de andorinha


Não consegui acender a palavra
Permaneço insone no verso ensandecido
Debulhando a imensidão ao largo desta hora

quarta-feira, julho 25, 2012

Ária de lábios em silente ortografia


Ah tu não adivinharias a manhã
Em que vicejaram teus perfumes
E minhas mãos tontas e sedentas
Buscaram-te na rota de um oásis

As rendas que ensejaram a pélvis
A corola deslindando os girassóis
Tua língua a inventar arrepios na
Lenta caligrafia de sílabas na pele

terça-feira, julho 24, 2012

sobre a tessitura do sonho e outros desalinhos


havia que tecer a palavra
ainda que fosse a última
e nela contivesse o sumo
a essência que foi estrada

havia que tecer a palavra
mesmo que fosse desatino
e nela contivesse o âmago
frio caos: único e palpável

segunda-feira, julho 23, 2012

outras trilogias


poeminha de essência

ela suscita
eu sucinto

haikai de predição

tão lua, lenda ao léu
incerta fortuna tua
canta a voz tão nua

poeminha de zero a zero

ela: zunia, zangava, zoava
eu: zen, zonzo, zíngaro



domingo, julho 22, 2012

último estudo sobre a leveza das estrelas


o amor lambe os olhos
faz cantoria aos ouvidos
brinca de lilás na língua
saltita de sol nas retinas

o amor mordisca orelha
faz cafuné no girassol
irrompe de sobressalto
a alegoria dos sentidos

o amor instiga as brisas
faz vereda nos cabelos
é pueril riso em desatino
afaga silêncio, desalinho

sábado, julho 21, 2012

sonatina para brusco e repentino lilás


esta vontade de existir
mais forte que palavra
me atiça ávido em vida
faz-me frêmito nas ruas

esta vontade de existir
irmana tépidos suores
acende-me luminárias
põe-me em cio, anseio

esta vontade de existir
mais forte que palavra
esta sede que não cede
tão nefasta: infesta-me

sexta-feira, julho 20, 2012

sob a fina caligrafia de um blues


quem não se sabe dor
é matéria rara
se achegam os espinhos
das rosas do caminho
acodem os açoites
do limo de tanta noite

quem não se sabe dor
é matéria rara
assim se percebem olhos
no avesso das lâminas
como mancha, nódoa
quem vive cego em anelos

quinta-feira, julho 19, 2012

auto de acontecimento para o amor de rude extravio


(ou quando a flor enfeitiça de visgo o suor das retinas)

ficou o não dito
a palavra enviesada
a nódoa no verso

o teu visgo de princesa
era fábula e se acabou

a nuvem brandiu seixo
a brisa atiçou vendaval

a fonte fez água e mágoa
como a cica que magoa

ficou o não dito
a palavra de acontecer
o que se foi do vir a ser

quarta-feira, julho 18, 2012

Dos poemas à espera de godot


dói-me o infortúnio n’alma
na calma pele de um gato
o medo que se manifesta
entre sina, azar e heresia

a crença para ungir o nada
a resistência entre párias
o eco de eras e never more
ódio às sextas: nunca mais

terça-feira, julho 17, 2012

haikai fugaz


exílios e alísios
oxalá uma guia
nessa ventania

segunda-feira, julho 16, 2012

trilogias


trilogia para a ausência

a língua do silêncio
a flor mais perene
a régua do impossível

trilogia para o nada

eu esqueço
eu não lembro
eu desconheço

trilogia para o invisível

cessa
passa
cega

domingo, julho 15, 2012

sonata elegante para o alvorecer


eu não sei como nascem os segredos
nem a distancia que o voo pode alcançar
sequer a maciez do livro sobre o seio
só sei da ausência, do vazio, da exiguidade
da imprecisão do verbo para (te) nomear

inspirado neste poema de Roberta Tostes Daniel

Como nascem os segredos

Na tarde em que um livro,
Ave pousada sobre o seio,
Dormiu e amou
Em teu nome,
Ausência

(Um voo, um sonho).


sábado, julho 14, 2012

da série sem título ou esboço para antemanhãs


quando este dia esgotar suas horas
e todas lembranças forem extintas
e peixes nadarem em águas iguais
então despertarei com as sombras
com as sobras do que foi saudade
com o azeviche deste olho pássaro
tão inútil como os passos na solidão

sexta-feira, julho 13, 2012

play it again


ainda efervescente
ela me olhou e disse:
toque-me outra vez

e a minha língua
rugiu em sustenidos

quinta-feira, julho 12, 2012

ária para voo de asa breve


mergulha o silencio
em meus olhos
e liberta a alma
do pássaro que
se interroga
em minha mão 

quarta-feira, julho 11, 2012

oração para artefatos da língua


a moça comeu o poema
e todo o silêncio
que ali dentro havia

a moça comeu rima
aliteração, prosódia
métrica, sinestesia

a moça comeu o poema
em todo sentido absoluto
eufemismo, anacoluto

terça-feira, julho 10, 2012

poeminha para liturgia noturna


há tanto tesouro em tua face
pérola, turmalina, esmeralda
que orbito lua em teu enlace

segunda-feira, julho 09, 2012

suíte burlesca para um diálogo com a ausência


foste tu nesta distância de muitos quilômetros
a ilha, a quimera, o oásis, pasárgada dos dias
a cotovia desavisada que insinuou a primavera
foste tu que me impuseste silencio e ausência
nesta seara de corpo que se move em frêmitos
no olho arredio que já se despediu das estrelas
foste tu, este eterno assovio em minhas retinas
a mão que agitou o delicado trovão da espera

domingo, julho 08, 2012

outra balada de impulso para anjos em movimento


ainda menino
peguei desobediência
com a palavra
- assim como incitar
os visgos do vento -
atropelando a sina,
as sílabas e a sintaxe
neste descompasso
de verbo, versos e nuvens

sábado, julho 07, 2012

Poeminha para os despojos da antemanhã


Sou devoto dos cimos e das auroras
Tenho em mim tendências de elevação
Às vezes me confundo em nuvem

Viajo no sobressalto do horizonte
Enlanguescido no despertencimento
Só quando azul me percebo desvario

Todo rumor me ganha rumos de vento
Gorjeio saliva para os teus despertares
Dou braços ao silêncio se me embaraço

sexta-feira, julho 06, 2012

ária de promessa e bem-querer


vem, que a casa é tua enquanto te amo
depois ganhas asas para outro encanto

terça-feira, julho 03, 2012

Poeminha para gota de orvalho em nua correnteza


Amor, teu corpo evoca rosas
carpelos, sépalas, pétalas
Sonoridade de rio, de lírio

domingo, julho 01, 2012

como se fosse um fade out em primeiro plano


eu não apareci em nenhum filme
não protagonizei uma cena de amor
sequer me deram créditos no the end

quando cerraram as cortinas
eu continuei pálido na poltrona
numa fileira de longos vazios

você pode achar até tragédia
mas não, esta lâmina na mão
não me cortará o pulso

ainda vou esperar a próxima sessão
quem sabe das cãs se faça a luz

sábado, junho 30, 2012

ária para quando o horizonte engole o sol


trago esse árido choro
que não corre
e nega a seca face
que foge e não é chão
e os pés adejam nuvem

trago esse árido choro
que naufraga
na areia das retinas
que é barco e leva
a sina que se desvela

trago esse árido choro
como ácido para a vida

sexta-feira, junho 29, 2012

Tudo é distância na lavra da imensidão


Desenho a palavra rio
Na correnteza de sede
Exausto à tua margem

quinta-feira, junho 28, 2012

Metaplagio de ramos, rosa e inventos


O poeta escreveu
Que esperava
Ser aberto por
Uma palavra

Eu nada espero
Das dádivas
De um verbo

Queria apenas
Se pedir fosse
O rasgo rápido
Desta lâmina

Sutil e afiada
Que acendes
Entre os dentes

quarta-feira, junho 27, 2012

Posologia: vide bula


Arrisque-se mais
A vida é isto ou aquilo
Não há meio termo

É raso ou abismo
É atraso ou urgência
É tumulto ou silêncio




terça-feira, junho 26, 2012

bestiário


a inocência me contempla
de uma das suas muitas esquinas
como um cão que não late
e vez em quando abana o rabo
a inocência me contempla
entre pássaros, ubíquos passos
a inocência é este bicho
domesticado nos meus dentes

segunda-feira, junho 25, 2012

Rapsódia para a superfície da voz e do silêncio


Amor, teu desejo me consome as retinas,
as palavras, os pulmões, toda a pele
não me deixa nomear as coisas:
me deixa clandestino ao espelho.

sábado, junho 23, 2012

balada de impulso para anjos em movimento


com os artefatos da manhã
hei de erguer um templo
onde depositarei silente
o que me resta nestes olhos
vermelhos, vazios e vadios
atormentados de vastidão

quarta-feira, junho 20, 2012

Poema perdido em caderno de cinema


escreva um roteiro para eu te amar
meio truffaut, meio godard
uma novela vaga, duas ou três coisas
ou viva sua vida sem me acossar

terça-feira, junho 19, 2012

Três, trois, three


Escorço

Escrevo atormentado
Por abismos
Quanto mais caio
Mais visgo


Suíte agreste para ventanias d’além mar

Uma noite quando lia atento
Une Saison en Enfer
Exultavam em mim arrepios
E uma cotovia desavisada
Pousando nos umbrais
Cantou never more, never more
E eu nunca mais fui o mesmo
Nunca mais.

Rapsódia fugaz para polaroides urbanas
p/ Nina Rizzi

um verso de rimbaud
um beijo de esquina
língua, saliva, sílaba

pescaria, poesia
lâminas no asfalto
estes versos bregas

deixa-me cantar piaf
à sombra do laranjal
o futuro que és praia

domingo, abril 29, 2012

diálogo poético

Sal

não espero desse corte
doer-me aguda e lentamente
nem óbvias cicatrizes

talvez, com alguma sorte
oferecer-me inteira
à tua língua, à tua sede
teu sal, tua saliva

não desejo dessa morte
muito mais
que mais um dia


variação com intermezzo sobre poema Sal de Daniela Delias

da dor espero o corte
espesso como saliva
na sede do vazio

e se vem lento
o vento
atiço a lenha

a cica é por um triz
travo afiado
de sorte e morte

mias um dia e passo
de língua e sal
o imã desse arrepio

Assis Freitas

quarta-feira, novembro 16, 2011

sexta-feira, maio 06, 2011

quarta-feira, abril 20, 2011

solo de viola para rebeca e odete

eram duas moçoilas mocinhas
viviam de várzea vizinhas
uma noite rebeca era minha
noutra odete virava rainha
tudo que havia não via rinha
também eu era rei sozinho
quando rebeca e odete se tinham

sexta-feira, março 18, 2011

canção de enlevo ao senhorio

paramirim, querubim
pecado reto
virtude de inseto

na asa do tempo voo
pássaro raro
prenhe de amor

quinta-feira, dezembro 09, 2010

ensaio mnemônico para uma feira livre

Feira, não desavisadamente
moro em uma Feira,
cidade por vocação comercial
e por tradição de ambulantes,
destemperados que tudo vendem
e não contentes repetem em voz alta
o discurso do produto
a quem se oferecer possa,
então segunda é sempre de primeira
nos meus tímpanos cansados

sexta-feira, novembro 05, 2010

as escolhas que eu me fiz e as escolhas que me fizeram

Caio Fernando Abreu

ALENTO

Quando mais nada houver,
eu me erguerei cantando,
saudando a vida
com meu corpo de cavalo jovem.

E numa louca corrida
entregarei meu ser ao ser do Tempo
e a minha voz à doce voz do vento.

Despojado do que já não há
solto no vazio do que ainda não veio,
minha boca cantará
cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo que há de vir.

ORIENTE

manda-me verbena ou benjoim no próximo crescente
e um retalho roxo de seda alucinante
e mãos de prata ainda (se puderes)
e se puderes mais, manda violetas
(margaridas talvez, caso quiseres)

manda-me osíris no próximo crescente
e um olho escancarado de loucura
(em pentagrama, asas transparentes)

manda-me tudo pelo vento:
envolto em nuvens, selado com estrelas
tingido de arco-íris, molhado de infinito
(lacrado de oriente, se encontrares)

domingo, outubro 31, 2010

sábado, outubro 02, 2010

poemas de centauro

I

Agora que já
estamos sozinhos
Permita-me provar

O fogo da peçonha
que alimenta
A alma inquieta

E me deixe apascentar
- sem medo - os incautos
Girassóis do entardecer