domingo, agosto 05, 2012

Haikais obsoletos


*
o amor é descoberta
luz na janela
e a porta meio aberta

*
não deu, não deu
disse ela: regar
flores no meu breu

*
a nuvem se esquece
no soslaio
em líquida prece

sábado, agosto 04, 2012

Pequena oração para as desditas e querências


Por ser o amor desvelo
Por ser o afeto enlevo

Por ser o bem dádiva
Por ser o mal ressalva

Por ser a água frescor
Por ser o vinho torpor

Por ser o mar presságio
Por ser o vento ágil

Por ser a fome escassez
Por ser a sede avidez

Por ser a morte destino
Por ser a vida caminho

sexta-feira, agosto 03, 2012

sonatina para eflúvios de seda e pele


te olhos em arrepio
em tranças muda
réstia de ocasião
tu absurdos bela
eu tonto anfitrião

quinta-feira, agosto 02, 2012

metapoema para o sal que arde na pele


hei de morrer nesta velha fotografia
com olhos pasmos de juventude
o fino lábio carente de palavras
as retinas ainda virgens

hei de morrer nesta velha fotografia
com esta face ainda imberbe
as mãos sem cataclismo
sem nunca ter te encontrado

quarta-feira, agosto 01, 2012

dois haikais


haikai de contrição

nobre é o tempo
a nos por cãs
em ilusões vãs

haikai de ocasião

tenho que ficar aceso
para queimar o acaso
na brasa do teu recato

terça-feira, julho 31, 2012

poeminha para margens barrentas


tenho nas mãos a lembrança de um cheiro
uns olhos que me percorrem sul e norte
e um fastio nos dentes em ebulição

segunda-feira, julho 30, 2012

Outra suíte para cercanias e orquídeas


Quero seguir até onde for o amor
Até sentir o perfume da pasárgada
A impalpável luz do alumbramento

Quero seguir até onde for o amor
Entre os abismos desta voragem
Doar-me corpo e verso em viagem

domingo, julho 29, 2012

poeminha involuntário


queria ser mallarmé
num lance rápido
estalando dedos e dados

sábado, julho 28, 2012

Suíte para cercanias e orquídeas


De que aurora tu és feita?
Onde pairas ilhargas sutis?
Frondosa primícia do querer

sexta-feira, julho 27, 2012

Para uma gramática de barros


(à guisa de metaplagio)

sistema límbico 
ambíguas faces
êxtase táctil
escritos primitivos

a cor das vogais
o latejar de andorinhas
uma pedra canora
olhar furado de nascentes:

a infância da língua

quinta-feira, julho 26, 2012

Poeminha de andorinha


Não consegui acender a palavra
Permaneço insone no verso ensandecido
Debulhando a imensidão ao largo desta hora

quarta-feira, julho 25, 2012

Ária de lábios em silente ortografia


Ah tu não adivinharias a manhã
Em que vicejaram teus perfumes
E minhas mãos tontas e sedentas
Buscaram-te na rota de um oásis

As rendas que ensejaram a pélvis
A corola deslindando os girassóis
Tua língua a inventar arrepios na
Lenta caligrafia de sílabas na pele

terça-feira, julho 24, 2012

sobre a tessitura do sonho e outros desalinhos


havia que tecer a palavra
ainda que fosse a última
e nela contivesse o sumo
a essência que foi estrada

havia que tecer a palavra
mesmo que fosse desatino
e nela contivesse o âmago
frio caos: único e palpável

segunda-feira, julho 23, 2012

outras trilogias


poeminha de essência

ela suscita
eu sucinto

haikai de predição

tão lua, lenda ao léu
incerta fortuna tua
canta a voz tão nua

poeminha de zero a zero

ela: zunia, zangava, zoava
eu: zen, zonzo, zíngaro



domingo, julho 22, 2012

último estudo sobre a leveza das estrelas


o amor lambe os olhos
faz cantoria aos ouvidos
brinca de lilás na língua
saltita de sol nas retinas

o amor mordisca orelha
faz cafuné no girassol
irrompe de sobressalto
a alegoria dos sentidos

o amor instiga as brisas
faz vereda nos cabelos
é pueril riso em desatino
afaga silêncio, desalinho

sábado, julho 21, 2012

sonatina para brusco e repentino lilás


esta vontade de existir
mais forte que palavra
me atiça ávido em vida
faz-me frêmito nas ruas

esta vontade de existir
irmana tépidos suores
acende-me luminárias
põe-me em cio, anseio

esta vontade de existir
mais forte que palavra
esta sede que não cede
tão nefasta: infesta-me

sexta-feira, julho 20, 2012

sob a fina caligrafia de um blues


quem não se sabe dor
é matéria rara
se achegam os espinhos
das rosas do caminho
acodem os açoites
do limo de tanta noite

quem não se sabe dor
é matéria rara
assim se percebem olhos
no avesso das lâminas
como mancha, nódoa
quem vive cego em anelos

quinta-feira, julho 19, 2012

auto de acontecimento para o amor de rude extravio


(ou quando a flor enfeitiça de visgo o suor das retinas)

ficou o não dito
a palavra enviesada
a nódoa no verso

o teu visgo de princesa
era fábula e se acabou

a nuvem brandiu seixo
a brisa atiçou vendaval

a fonte fez água e mágoa
como a cica que magoa

ficou o não dito
a palavra de acontecer
o que se foi do vir a ser

quarta-feira, julho 18, 2012

Dos poemas à espera de godot


dói-me o infortúnio n’alma
na calma pele de um gato
o medo que se manifesta
entre sina, azar e heresia

a crença para ungir o nada
a resistência entre párias
o eco de eras e never more
ódio às sextas: nunca mais

terça-feira, julho 17, 2012

haikai fugaz


exílios e alísios
oxalá uma guia
nessa ventania

segunda-feira, julho 16, 2012

trilogias


trilogia para a ausência

a língua do silêncio
a flor mais perene
a régua do impossível

trilogia para o nada

eu esqueço
eu não lembro
eu desconheço

trilogia para o invisível

cessa
passa
cega

domingo, julho 15, 2012

sonata elegante para o alvorecer


eu não sei como nascem os segredos
nem a distancia que o voo pode alcançar
sequer a maciez do livro sobre o seio
só sei da ausência, do vazio, da exiguidade
da imprecisão do verbo para (te) nomear

inspirado neste poema de Roberta Tostes Daniel

Como nascem os segredos

Na tarde em que um livro,
Ave pousada sobre o seio,
Dormiu e amou
Em teu nome,
Ausência

(Um voo, um sonho).


sábado, julho 14, 2012

da série sem título ou esboço para antemanhãs


quando este dia esgotar suas horas
e todas lembranças forem extintas
e peixes nadarem em águas iguais
então despertarei com as sombras
com as sobras do que foi saudade
com o azeviche deste olho pássaro
tão inútil como os passos na solidão

sexta-feira, julho 13, 2012

play it again


ainda efervescente
ela me olhou e disse:
toque-me outra vez

e a minha língua
rugiu em sustenidos

quinta-feira, julho 12, 2012

ária para voo de asa breve


mergulha o silencio
em meus olhos
e liberta a alma
do pássaro que
se interroga
em minha mão 

quarta-feira, julho 11, 2012

oração para artefatos da língua


a moça comeu o poema
e todo o silêncio
que ali dentro havia

a moça comeu rima
aliteração, prosódia
métrica, sinestesia

a moça comeu o poema
em todo sentido absoluto
eufemismo, anacoluto

terça-feira, julho 10, 2012

poeminha para liturgia noturna


há tanto tesouro em tua face
pérola, turmalina, esmeralda
que orbito lua em teu enlace

segunda-feira, julho 09, 2012

suíte burlesca para um diálogo com a ausência


foste tu nesta distância de muitos quilômetros
a ilha, a quimera, o oásis, pasárgada dos dias
a cotovia desavisada que insinuou a primavera
foste tu que me impuseste silencio e ausência
nesta seara de corpo que se move em frêmitos
no olho arredio que já se despediu das estrelas
foste tu, este eterno assovio em minhas retinas
a mão que agitou o delicado trovão da espera

domingo, julho 08, 2012

outra balada de impulso para anjos em movimento


ainda menino
peguei desobediência
com a palavra
- assim como incitar
os visgos do vento -
atropelando a sina,
as sílabas e a sintaxe
neste descompasso
de verbo, versos e nuvens

sábado, julho 07, 2012

Poeminha para os despojos da antemanhã


Sou devoto dos cimos e das auroras
Tenho em mim tendências de elevação
Às vezes me confundo em nuvem

Viajo no sobressalto do horizonte
Enlanguescido no despertencimento
Só quando azul me percebo desvario

Todo rumor me ganha rumos de vento
Gorjeio saliva para os teus despertares
Dou braços ao silêncio se me embaraço

sexta-feira, julho 06, 2012

ária de promessa e bem-querer


vem, que a casa é tua enquanto te amo
depois ganhas asas para outro encanto

terça-feira, julho 03, 2012

Poeminha para gota de orvalho em nua correnteza


Amor, teu corpo evoca rosas
carpelos, sépalas, pétalas
Sonoridade de rio, de lírio

domingo, julho 01, 2012

como se fosse um fade out em primeiro plano


eu não apareci em nenhum filme
não protagonizei uma cena de amor
sequer me deram créditos no the end

quando cerraram as cortinas
eu continuei pálido na poltrona
numa fileira de longos vazios

você pode achar até tragédia
mas não, esta lâmina na mão
não me cortará o pulso

ainda vou esperar a próxima sessão
quem sabe das cãs se faça a luz

sábado, junho 30, 2012

ária para quando o horizonte engole o sol


trago esse árido choro
que não corre
e nega a seca face
que foge e não é chão
e os pés adejam nuvem

trago esse árido choro
que naufraga
na areia das retinas
que é barco e leva
a sina que se desvela

trago esse árido choro
como ácido para a vida

sexta-feira, junho 29, 2012

Tudo é distância na lavra da imensidão


Desenho a palavra rio
Na correnteza de sede
Exausto à tua margem

quinta-feira, junho 28, 2012

Metaplagio de ramos, rosa e inventos


O poeta escreveu
Que esperava
Ser aberto por
Uma palavra

Eu nada espero
Das dádivas
De um verbo

Queria apenas
Se pedir fosse
O rasgo rápido
Desta lâmina

Sutil e afiada
Que acendes
Entre os dentes

quarta-feira, junho 27, 2012

Posologia: vide bula


Arrisque-se mais
A vida é isto ou aquilo
Não há meio termo

É raso ou abismo
É atraso ou urgência
É tumulto ou silêncio




terça-feira, junho 26, 2012

bestiário


a inocência me contempla
de uma das suas muitas esquinas
como um cão que não late
e vez em quando abana o rabo
a inocência me contempla
entre pássaros, ubíquos passos
a inocência é este bicho
domesticado nos meus dentes

segunda-feira, junho 25, 2012

Rapsódia para a superfície da voz e do silêncio


Amor, teu desejo me consome as retinas,
as palavras, os pulmões, toda a pele
não me deixa nomear as coisas:
me deixa clandestino ao espelho.

sábado, junho 23, 2012

balada de impulso para anjos em movimento


com os artefatos da manhã
hei de erguer um templo
onde depositarei silente
o que me resta nestes olhos
vermelhos, vazios e vadios
atormentados de vastidão

quarta-feira, junho 20, 2012

Poema perdido em caderno de cinema


escreva um roteiro para eu te amar
meio truffaut, meio godard
uma novela vaga, duas ou três coisas
ou viva sua vida sem me acossar

terça-feira, junho 19, 2012

Três, trois, three


Escorço

Escrevo atormentado
Por abismos
Quanto mais caio
Mais visgo


Suíte agreste para ventanias d’além mar

Uma noite quando lia atento
Une Saison en Enfer
Exultavam em mim arrepios
E uma cotovia desavisada
Pousando nos umbrais
Cantou never more, never more
E eu nunca mais fui o mesmo
Nunca mais.

Rapsódia fugaz para polaroides urbanas
p/ Nina Rizzi

um verso de rimbaud
um beijo de esquina
língua, saliva, sílaba

pescaria, poesia
lâminas no asfalto
estes versos bregas

deixa-me cantar piaf
à sombra do laranjal
o futuro que és praia

domingo, abril 29, 2012

diálogo poético

Sal

não espero desse corte
doer-me aguda e lentamente
nem óbvias cicatrizes

talvez, com alguma sorte
oferecer-me inteira
à tua língua, à tua sede
teu sal, tua saliva

não desejo dessa morte
muito mais
que mais um dia


variação com intermezzo sobre poema Sal de Daniela Delias

da dor espero o corte
espesso como saliva
na sede do vazio

e se vem lento
o vento
atiço a lenha

a cica é por um triz
travo afiado
de sorte e morte

mias um dia e passo
de língua e sal
o imã desse arrepio

Assis Freitas

quarta-feira, novembro 16, 2011

sexta-feira, maio 06, 2011

quarta-feira, abril 20, 2011

solo de viola para rebeca e odete

eram duas moçoilas mocinhas
viviam de várzea vizinhas
uma noite rebeca era minha
noutra odete virava rainha
tudo que havia não via rinha
também eu era rei sozinho
quando rebeca e odete se tinham

sexta-feira, março 18, 2011

canção de enlevo ao senhorio

paramirim, querubim
pecado reto
virtude de inseto

na asa do tempo voo
pássaro raro
prenhe de amor

quinta-feira, dezembro 09, 2010

ensaio mnemônico para uma feira livre

Feira, não desavisadamente
moro em uma Feira,
cidade por vocação comercial
e por tradição de ambulantes,
destemperados que tudo vendem
e não contentes repetem em voz alta
o discurso do produto
a quem se oferecer possa,
então segunda é sempre de primeira
nos meus tímpanos cansados

sexta-feira, novembro 05, 2010

as escolhas que eu me fiz e as escolhas que me fizeram

Caio Fernando Abreu

ALENTO

Quando mais nada houver,
eu me erguerei cantando,
saudando a vida
com meu corpo de cavalo jovem.

E numa louca corrida
entregarei meu ser ao ser do Tempo
e a minha voz à doce voz do vento.

Despojado do que já não há
solto no vazio do que ainda não veio,
minha boca cantará
cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo que há de vir.

ORIENTE

manda-me verbena ou benjoim no próximo crescente
e um retalho roxo de seda alucinante
e mãos de prata ainda (se puderes)
e se puderes mais, manda violetas
(margaridas talvez, caso quiseres)

manda-me osíris no próximo crescente
e um olho escancarado de loucura
(em pentagrama, asas transparentes)

manda-me tudo pelo vento:
envolto em nuvens, selado com estrelas
tingido de arco-íris, molhado de infinito
(lacrado de oriente, se encontrares)

domingo, outubro 31, 2010

sábado, outubro 02, 2010

poemas de centauro

I

Agora que já
estamos sozinhos
Permita-me provar

O fogo da peçonha
que alimenta
A alma inquieta

E me deixe apascentar
- sem medo - os incautos
Girassóis do entardecer

quinta-feira, agosto 19, 2010

Em cada poste o silêncio

1. Às vezes dá vontade de incendiar esse silêncio, mas me calam as palavras.
2. A incoerência desceu justo com o teu silêncio.
3. Respiro o silêncio desta noite cheia de arrepios.
4. A imensidão do mar só não é maior que o vazio desse silencio.
5. A noite veste o silencio das preces enluaradas.
6. O branco da tua pele é um silêncio que me impele.
7. Dela restou o silencio entre os artifícios da manhã.
8. Vejo a brisa que se evade pelo silencio dos teus passos.
9. Tenho quase certeza que esse silencio vem do teu jeito de amar.
10. Ela se cobria de silêncios para provocar o alvoroço.
11. Era obcecado por girassol, pôr-do-sol, lençol e ficar como o silencio a sós.
12. Achava bonito o retrato na parede emoldurando o silencio do quarto.
13. Ele abusava de espantos para o silencio ir-se embora.
14. Sempre que ela se vai deixa um rastro embevecido de silêncio.
15. Só o silêncio havia como coisa concreta, o resto era ilusão.
16. Ela entrou repentina como o silêncio e paz não mais se fez.
17. Houve silêncio enquanto rompia o verbo da tua carne.
18. Invariavelmente temias o silêncio das tuas respostas.

sexta-feira, julho 23, 2010

Suíte para ouvir Leminski

Sobre precipícios desfilam os instantes
Deslizam feito fagulhas atordoadas
Vou começar a me perder para ser o outro,
O que come versos e arrota maresias.
Um dia quero ser todas as poesias.

segunda-feira, junho 28, 2010

as escolhas que eu me fiz e as escolhas que me fizeram - Murilo Rubião



Bárbara

"O homem que se extraviar
do caminho da doutrina,
terá por morada a assembléia
dos gigantes."
- Provérbios, XXI; 16.

Bárbara gostava somente de pedir. Pedia e engordava.
Por mais absurdo que pareça, encontrava-me sempre disposto a lhe satisfazer os caprichos. Em troca de tão constante dedicação, dela recebi frouxa ternura e pedidos que se renovavam continuamente. Não os retive todos na memória, preocupado em acompanhar o crescimento do seu corpo, se avolumando à medida que se ampliava sua ambição. Se ao menos ela desviasse para mim parte do carinho dispensado às coisas que eu lhe dava, ou não engordasse tanto, pouco me teriam importado os sacrifícios que fiz para lhe contentar a mórbida mania.
Quase da mesma idade, fomos companheiros inseparáveis na meninice, namorados, noivos e, um dia, nos casamos. Ou melhor, agora posso confessar que não passamos de simples companheiros.
Enquanto me perdurou a natural inconsequência da infância, não sofri com as suas esquisitices. Bábara era menina franzina e não fazia mal que adquirisse formas mais amplas. Assim pensando, muito tombo levei, subindo a árvores, onde os olhos ávidos da minha companheira descobriam frutas sem sabor ou ninhos de passarinho. Apanhei também algumas surras de meninos aos quais era obrigado agredir unicamente para realizar um desejo de Bárbara. E se retornava com o rosto ferido, maior se lhe tornava o contentamento. Segurava-me a cabeça entre as mãos e sentia-se feliz em acariciar-me a face intumescida, como se as equimoses fossem um presente que eu lhe tivesse dado.
Às vezes relutava em aquiescer às suas exigências, vendo-a engordar incessantemente. Entretanto, não durava muito a minha indecisão. Vencia-me a insistência do seu olhar, que trasformava os mais insignificantes pedidos numa ordem formal. (Que ternura lhe vinha aos olhos, que ar convincente o dela ao me fazer tão extravagantes solicitações!)
Houve tempo - sim, houve - em que me fiz duro e ameacei abandoná-la ao primeiro pedido que recebesse.
Até certo ponto, minha advertência produziu o efeito desejado. Bárbara se refugiou num mutismo agressivo e se recusava a comer ou conversar comigo. Fugia à minha presença, escondendo-se no quintal e contaminava o ambiente com uma tristeza que me angustiava. Definhava-lhe o corpo, enquanto lhe crescia assustadoramente o ventre.
Desconfiado de que a ausência de pedidos em minha mulher poderia favorecer uma nova espécie de fenômeno, apavorei-me. O médico me tranquilizou. Aquela barriga imensa prenunciava apenas um filho.
Ingênuas esperanças fizeram-me acreditar que o nascimento da criança elimeinasse de vez as estranhas manias de Bárbara. E suspeitando que a sua magreza e palidez fossem prenúncio de grave moléstia, tive medo que, adoecendo, lhe morresse o filho no ventre. Antes que tal acontecesse, lhe implorei que pedisse algo.
Pediu o oceano.
Não fiz nenhuma objeção e embarquei no mesmo dia, iniciando longa viagem ao liltoral. Mas, frente ao mar, atemorizei-me com o seu tamanho. Tive receio de que a minha esposa viesse a engordar em proporção ao pedido, e lhe trouxe somente uma pequena garrafa contendo água do oceano.
No regresso, quis desculpar meu procedimento, porém ela não me prestou atenção. Sofregamente, tomou-me o vidro das mãos e ficou a olhar, maravilhada, o líquido que ele continha. Não mais o largou. Dormia com a garrafinha entre os braços e, quando acordada, colocava-o contra a luz, provava um pouco da água. Entrementes, engordava.
Momentaneamente despreocupei-me da exagerada gordura de Bárbara. As minhas apreensões voltavam-se agora para o seu ventre a dilatar-se de forma assustadora. A tal extremo se lhe dilatou que, apesar da compacta massa de banha que lhe cobria o corpo, ela ficava escondida por trás de colossal barriga. Receoso de que dali saísse um gigante, imaginava como seria terrível viver ao lado de uma mulher gordíssima e um filho monstruoso, que poderia ainda herdar da mãe a obsessão de pedir as coisas.
Para meu desapontamento, nasceu um ser raquítico e feio, pesando um quilo.
Desde os primeiros instantes, Bárbara o repeliu. Não por ser miúdo e disforme, mas apenas por não o ter encomendado.
A insensibilidade da mãe, indiferente ao pranto e à fome do menino, obrigou-me a criá-lo no colo. Enquanto ele chorava por alimento, ela se negava a entregar-lhe os seios volumosos, e cheios de leite.
Quando Bárbara se cansou da água do mar, pediu-me um baobá, plantado no terreno ao lado do nosso. De madrugada, após certificar-me de que o garoto dormia tranquilamente, pulei o muro divisório com o quintal do vizinho e arranquei um galho da árvore.
Ao regressar a casa, não esperei que amanhecesse par entregar o presente à minha mulher. Acordei-a, chamando baixinho pelo seu nome. Abriu os olhos, sorridente, adivinhando o motivo por que fora acordada:
- Onde esta?
- Aqui. E lhe exibi a mão, que trazia oculta nas costas.
- Idiota! gritou, cuspindo no meu rosto. - Não lhe pedi um galho - E virou para o canto, sem me dar tempo de explicar que o baobá era demasiado frondoso, medindo cerca de dez metros de altura.
Dias depois, como o dono do imóvel recusava-se vender a árvore separadamente, tive que adquirir toda a propriedade por um preço exorbitante.
Fechado o negócio, contratei o serviço de alguns homens que, munidos de picaretas e de um guindaste, arrancaram o baobá do solo e o estenderam no chão.
Feliz e saltitante, lembrando uma colegial, Bárbara passava as horas passeando sobre o grosso tronco. Nele também desenhava ficuras, escrevia nomes. Encontrei o meu debaixo de um coração, o que muito me comoveu. Este foi, no entanto, o único gesto de carinho que dela recebi. Alheia à gratidão com que eu recebera a sua lembrança, assistiu ao murchar das folhas e, ao ver seco o baobá, desinteressou-se dele.
Estava terrivelmente gorda. Tentei afastá-la da obssão, levando-a ao cinema, aos campos de futebol. (O menino tinha que ser carregado nos braços, pois anos após o seu nascimento continuava do mesmo tamanho, sem crescer uma polegada.) A primeira idéia que lhe ocorria, nessas ocasiões, era pedir a máquina de projeção ou a bola, com a qual se entretinham os jogadores. Fazia-me interromper, sob o protesto dos assistentes, a sessão ou a partida, a fim de lhe satisfazer a vontade.
Muito tarde verifiquei a inutilidade dos meus esforços para modificar o comportamento de Bárbara. Jamais compreenderia o meu amor e engordaria sempre.
Deixei que agisse como bem entendesse e aguardei resignadamente novos pedidos. Seriam os últimos. Já gastara uma fortuna com as suas excentricidades.
Afetuosamente, chegou-se para mim, uma tarde, e me alisou os cabelos.
Apanhado de surpresa, não atinei de imediato com o motivo do seu procedimento. Ela mesmo se encarregou de mostrar a razão:
- Seria tão feliz, se possuísse um navio!
- Mas ficaremos pobres, querida. Não teremos com que comprar alimentos e o garoto morrerá de fome.
- Não importa o garoto, teremos um navio, que é a coisa mais bonita do mundo.
Irritado, não pude achar graça nas suas palavras. Como poderia saber da beleza de um barco, se nunca tinha visto um e se conhecia o mar somente através de uma garrafa?!
Contive a raiva e novamente embarquei para o litoral. Dentre os transatlânticos ancorados no porto, escolhi o maior. Mandei que o desmontassem e o fiz transportar à nossa cidade.
Voltava desolado. No último carro de uma das numerosas composições que conduziam partes do navio, meu filho olhava-me inquieto, procurando compreender a razão de tantos e inúteis apitos de trem.
Bárbara, avisada por telegrama, esperava-nos na gare da estação. Recebeu-nos alegremente e até dirigiu um gracejo ao pequeno.
Numa área extensa, formada por vários lotes, Bárbara acompanhou os menores detalhes da montagem da nave. Eu permaneci sentado no chão, aborrecido e triste. Ora olhova o menino, que talvez nunca chegasse a caminhar com as suas perninhas, ora o corpo de minha mulher que, de tão gordo, vários homens, dando as mãos, uns aos outros, não conseguiriam abraçá-lo.
Montado o barco, ela se transferiu para lá e não mais desceu à terra. Passava os dias e as noites no convés, inteiramente abstraída de tudo que não se relacionasse com a nau.
O dinheiro escasso, desde a compra do navio, logo se esgotou. Veio a fome, o guri esperneava, rolava na relva, enchia a boca de terra. Já não me tocava tanto o choro de meu filho. Trazia os olhos dirigidos para minha esposa, esperando que emagrecesse à falta de alimantação.
Não emagreceu. Pelo contrário, adquiriu mais algumas dezenas de quilos. A sua excessiva obesidade não lhe permitia entrar nos beliches e os seus passeios se limitavam ao tombadilho, onde se locomovia com dificuldade.
Eu ficava junto ao menino e, se conseguia burlar a vigilância de minha mulher, roubava pedaços de madeira ou ferro do transatlântico e trocava-os por alimento.
Vi Bárbara, uma noite, olhando fixamente o céu. Quando descobri que dirigia os olhos para a lua, larguei o garoto no chão e subi depressa até o lugar em que ela se encontrava. Procurei, com os melhores argumentos, desviar-lhe a atenção. Em seguida, percebendo a inutilidade das minhas palavras, tentei puxá-la pelos braços. Também não adiantou. O seu corpo era pesado demais para que eu conseguisse arrastá-lo.
Desorientado, sem saber como proceder, encostei-me à amurada. Não lhe vira antes tão grave o rosto, tão fixo o olhar. Aquele seria o derradeiro pedido. Esperei que o fizesse. Ninguém mais a conteria.
Mas, ao cabo de alguns minutos, respirei aliviado. Não pediu a lua, porém uma minúscula estrela, quase invisível a seu lado. Fui buscá-la.
________________________________________

fonte: O Pirotécnico Zacarias (Editora Clube do Livro, 1988)

terça-feira, abril 27, 2010

Achamento

Quem descobriu o Brasil
Quem descobriu a América
Quem descobriu o Caminho das Índias

Atormentado por tantas descobertas
Eu me contentava sozinho no quintal