segunda-feira, setembro 10, 2012

poema para descansar em teus líquidos


quando eu me julgava teu
tão fiel na imprecisa memória
da água que elevava o musgo

todo equilíbrio era um olhar
como uma seda para o lábio
e nós para acender a solidão

domingo, setembro 09, 2012

Poema para a memória oculta de um aroma


Se acende a chama do corpo
Ascende em fúria o que leio
O soluço manso da palavra

Vem o vento de um lume
Escreve à mão o que respiro
O leve suspiro da estrela

Sonho a seiva de um nome
Apetece o sabor da urgência
A imperfeição que se realiza

Há o vasto que corre na veia
Infindável lava que consome
Este sereno rosto de ausência

sábado, setembro 08, 2012

poeminha de conjunção soberana


você já me era antes de nos existirmos
hoje tudo me é conjugação de abraços
quando juntinhos nos elevamos em laço

sexta-feira, setembro 07, 2012

o desconcerto do amor e outras inquietudes


aguardo a sede dos lábios
com tuas vestes de nuvem
e nada envelhece a espera
para deitar-me em fruição
de astro e lua no teu corpo
já me és flor neste enlace
de sopro, soluço e abraço
a erguer horas sem alarde

quinta-feira, setembro 06, 2012

Poema de urgência para o tumulto da alvorada


De que secreta miragem
Viceja a árvore da manhã
Quando o lábio dá vida
Ao ventre que se excita

De que imorredouro anseio
A ubíqua e límpida luz
Traça voltas e enleio
Em teu descuidado seio

De que açoite mais pleno
Das tuas mãos em desafio
No mister lento da língua
Nasce o jorro tão intenso

quarta-feira, setembro 05, 2012

poeminha de simpatia


eu assumo:
nem preciso
me apresentar
não tenho livro
para ser lido;

a poesia que faço
mal cabe no talhe
do ciberespaço

terça-feira, setembro 04, 2012

poeminha de padecimento


sofro de uma inutilidade sem fim
nenhuma palavra me salva

segunda-feira, setembro 03, 2012

Sopro de árvore frondosa e língua misteriosa


Oh poeta augusto, verso singular
De logro vivo eu, em rogo
Oh tão sutil abismar-se
Quem me dera um pouso
Uma choupana de quimeras
Um poema cheio de etceteras
Um vaso perfumado de alecrim
Que dói em mim/Que dói em mim
A carne virginal de uma palavra

domingo, setembro 02, 2012

poeminha de cão danado


a minha saudade é um girassol amargo
a saliva de sol poente
este agosto aziago no dente 

sábado, setembro 01, 2012

sonata para uma chuva em olhos pequenos


em qualquer espaço
no orbe, na via láctea
em qualquer lugar

nos poros, nos polos
na língua equidistante
na pele nova da nuvem

amor é muito pouco
não cabe na dimensão
de palavra alguma

sexta-feira, agosto 31, 2012

sobre a explanação do raso e seus limos


(versão em sertania)

meu olho gorjeia na manhã
caminho raso sobre estrado
nem o sol incendeia acauã

corre arruinada em vitupério
a nuvem paira sobrancelha
na retina insolente não há rio

os pés se destinam a espinho
na margem silente da pétala
como teu lábio que exala fala

p.s. “fui, como ervas, e não me arrancaram”

quinta-feira, agosto 30, 2012

sobre a explanação do raso e seus limos


pois me habitam os silêncios
peixes, náufragos, delgados
não me conheci no ontem
na palavra imersa em vazios
pois me carrego alheio e trôpego
no desenlace de pedra e agulhas
de lábios em artifício de esperas
e um sol a ferver nas têmporas

quarta-feira, agosto 29, 2012

Nenhum silencio vaza do relâmpago


Tudo se perde neste ermo
Neste tecido de linguagem
Nada se fixa nas retinas
Nem o ar soprado do lábio

Espaço sem memória
Flecha solta em extravio
Até teu nome se apagou
Na tez da lamina, por um fio

Tudo se perde neste ermo
O caminho da nuvem em líquen
A consagração do fogo e do cravo
Este turbilhão que emana do raio

p.s. “Sei que estou vivo
entre dois parênteses”

terça-feira, agosto 28, 2012

Sobre a luminosidade do espanto e outros arrepios


(à guisa de um metaplagio de E.E. Cummings)

Ainda douram teus lábios amados
No sonoro encontro de perfumes
E eu tão ignorante de tua fortuna

Senhor errante numa terra perdida
Curvando-me ao sabor do súbito
“Quando o meu amor vem ter comigo”

p.s. “a função do amor é fabricar desconhecimento”

segunda-feira, agosto 27, 2012

um poema que poderia ser punhal


quero registrar que
por absoluta falta
intentei hoje
este rasgo:
pássaro raro

para quando
divisar
a barca que
abisma ao nada

p.s. se nada tenho a dizer
por que imolar o silêncio?

domingo, agosto 26, 2012

A compreensão do peixe e outros artifícios do amor


Te esboço em rio
Para fluir tuas águas
Navegar-te os flancos

Fazer-me espuma
Para teu itinerário
E assim inundado

Imerso neste rasgo
Vagar em cardume
De saliva, lua e lume

sábado, agosto 25, 2012

canção para o que vejo, o que sou e suponho


ouço do verbo que me açoita:
a crua correnteza do silêncio

dos átimos que me soçobram
que vinguem súbitos do olhar

da mão que verga ato e gesto
dou-me lavra do palimpsesto

p.s. “Tudo o que amei, amei sozinho”

sexta-feira, agosto 24, 2012

uma prosa


Ensaio fugaz para um desatino mnemônico    

Como você sabe meus dias continuam iguais. Acordo cedo e acendo o cigarro. É a primeira epifania. A sagração de todas as mortes que podem advir daquela fumaça. Mas é assim mesmo, a morte está sempre nos calcanhares, porque não traga-la para o âmago do pulmão.
Dito isso, já estou me preparando para ir ao trabalho. O honesto trabalho que todos admiram, o serviçal do sistema, o aprumado senhor do capital que nos abençoa. No trânsito discuto, xingo, blasfemo: tudo isso com os vidros fechados. Porque aqui dentro um tumulto perambula pelas veias.
De todas as coisas que você sabe, eu nunca te escondi nada, nadinha. Algumas são simples devaneios, de fato não existem. O problema é que há muito não consigo discernir entre as coisas de fato, entre o ato e o sobressalto. Brincadeira, amor, eu tinha que aproveitar umas rimas nesta epístola para alegrar o enredo. Ou seria desenredo.
Como você sabe eu não consigo contar nada de forma linear. Tenho que por uns adereços, uns penduricalhos para dar ritmo. Outro dia li um poema de Rimbaud em que ele dizia “eu só escrevo silêncios’”. Sabe quando uma coisa mora dentro da gente, fixa residência nas retinas. Assim fiquei eu com o verso do poeta.
Assim como fico com todos os silêncios que me habitam e todos aqueles outros que ainda fazem eco nas retinas. Fico pensando se a morada do silêncio seria a retina. Ou será que ele perambula pelos ossos quando a gente caminha, se excita quando a gente faz sexo, fica triste quando a gente chora. O silêncio e os seus sentidos. Acho que vou compor um ensaio: “a gênese do silêncio sob a ótica de um entardecer”.
O que tu achas, amor? Como você sabe entardece rápido por aqui, do lado de cá. É aquela hora em que os girassóis desfilam seus alamares incendiando o horizonte. Tu lembras de quantos poemas eu fiz para ti sobre os girassóis, e do teu espanto quando me referi ao helianto (helianthus annuus), e tu não sabias que um outro nome designava esta planta caracterizada por possuir grandes inflorescências do tipo capítulo, cujo caule pode atingir até 3 metros de altura e apresenta filotaxia do tipo oposta cruzada, notável por "olhar" para o Sol, comportamento vegetal conhecido como heliotropismo.
 Tanta coisa para nada, não é amor. O breve conhecimento sobre o efêmero. Sei que tu percebes as coisas com eu, por isso te escrevo. Como se fosses a destinatária dos meus anelos ( eu ia escrever sonho, amor, mas anelo carrega uma simbologia maior).
Sabe aquele poema que tanto gostas do Neruda: “Te amo sem saber como, nem quando, nem onde, assim te amo porque não sei amar de outra maneira”. Encontrei-o numa edição antiga em um sebo, tem uns riscos de caneta em alguns poemas, mas mesmo assim comprei-o. Pensei em enviar junto com esta carta que estás lendo agora enquanto escrevo, porém desisti. Quero te entregar pessoalmente, sabe, sentir o livro e a textura da tua pele juntos.
Outra coisa: aquele filme “Os contos de Nova York”, consegui uma cópia para assistirmos. É tão belo, amor, com aquela canção do Procul Harum:  A Whiter Shade of Pale. Tenho tantas coisas para fazermos juntos que não cabe numa existência. Por isso a urgência das palavras.
E por falar em urgência, amor, tenho que finalizar. O telefone está tocando sem parar. Como você sabe, ainda não consegui me desvencilhar de muitas coisas. E elas rugem apressadas querendo companhia. Aquele tumulto, tu sabes, se enrosca lentamente: inexprimível.
A ti só aspiro em augusto retiro.

p.s. este final é Rimbaud (esqueci de por as aspas)
p.s.2 é um trecho da Canção da Torre Mais Alta

Eu e minhas indagações para o mar


escrever, escrever, escrever
até vir o súbito e o infinito
na palavra:

quinta-feira, agosto 23, 2012

Dois querer


poeminha de abraço enfermo da ausência

faço versos da distância
que enlaço do teu passo
todo pretérito em desejo
guardo saudade e cheiro
imerso no largo imenso

haikai minimalista

no mesmo passo de aquém
lanço chamas ao acaso
para a solidão não há refém