segunda-feira, janeiro 25, 2010

haykay 70
pessoas andavam black
tudo respirava blue
eu beautiful

terça-feira, janeiro 05, 2010

sábado, janeiro 02, 2010

domingo, dezembro 27, 2009

NAQUELA ÉPOCA NÓS ANDÁVAMOS EM BANDOS

“As idéias, para mim, são como as nozes, e até hoje não descobri melhor processo para saber o que está dentro de umas e outras, - senão quebrá-las.”
Machado de Assis

Naquela época nós andávamos em bandos. Não sei se era pura impressão. Ele não. Não se acostumava com essa tarefa de escolhas. Um dia chegava músico, outro dia escritor. Tinha sempre notícias novas, detalhes de uma canção, coincidências de uma narrativa. Vinha sempre imbuído de um encantamento para nos presentear. Do mesmo modo que chegava, partia. Certo dia soubemos que havia morrido. Foi quando decidi contar a sua história, mas ainda era muito cedo. Era preciso que o tempo passasse para que as coisas ficassem mais nítidas dentro de mim. Só assim teria condições de recuperá-lo. Transformá-lo em cristal muito fino, absolutamente transparente.
Andávamos em bandos. Não era impressão. Ele não. Quando nos encontrava trazia uma alegria desmesurada. Alegria que se expressava nas palavras que ele sabia tão bem usar. Movia com facilidade o rumo de qualquer conversa. Lembro-me que certa feita pediu o violão e tocou uma música que nunca havíamos escutado. A letra da canção dizia exatamente aquilo que queríamos há tanto tempo expressar e não conseguíamos. Era uma espécie de mágico sem truques. Quando de outra vez pedimos que repetisse a canção, ele se negou afirmando que já a tinha esquecido. Estava preparando coisas novas que quando estivessem prontas nos mostraria.
Assim passava o tempo. Andávamos em bandos. Ele não. Poeta leia aqui o que escrevi, ou, Poeta escute isso aqui. O chamado possuía essa variação. Eu lia atento as narrativas. Às vezes elogiava, às vezes criticava esse ou aquele trecho. Ele ria. Você é um grande poeta. Deixe-me ver o que anda fazendo. Eu mostrava as páginas rabiscadas. Tinha uma generosidade absoluta com os amigos. Sempre acreditou mais em mim do que eu mesmo. Não pare de escrever Poeta, você é dos bons.
O engraçado é que a maioria de nós queria ser despojado como ele. Não dava importância ao que fazia. Repetia – citando Machado - que as idéias eram como nozes, tinha-se que quebrar para ver o que havia dentro. Depois concluía: as minhas nozes ou estão vazias ou não tem sabor duradouro.
Na verdade ele quebrava nozes para nós, nos alimentava com as suas idéias. Andávamos em bandos. Ele não. Poeta estou tentando escrever um romance. Já tenho o título. Depois me contou que o escritor Antonio Torres depois de muitas idas e vindas para compor o primeiro livro, encontrou-se numa noite chuvosa dentro do apartamento em São Paulo escutando My funny Valentine de Miles Davis. Ao som do trompete mágico sentiu Um cão uivando para a lua. Era o título do seu primeiro livro. Está vendo Poeta, estou no caminho certo, já tenho o título agora é só escrever o livro.
Não sei se ele começou o romance. Mas o título era por demais sugestivo: Quando os homens menstruam. Tentou até me explicar o enredo. Para meu azar, foi exatamente o dia que estava com a namorada nova. Uma dura conquista que consumiu vários poemas, noites de vodca e quase uma úlcera. Só tinha olhos para ela. Não prestei atenção ao que ele me falava. Pouco tempo depois havia esquecido o romance, eu também em pouco tempo já tinha outra conquista em alvo. Seguindo o mesmo ritual: vários poemas, noites de vodca e quase uma úlcera.
Ele às vezes desaparecia por várias semanas. Voltava mais pálido do que o normal. Chamava a esses períodos de reclusão voluntária. Não sabíamos o que fazia durante esses períodos. Numa dessas voltas, nos encontramos numa mostra de filmes para assistir a Árvore dos Tamancos de Ermano Olmi, cineasta romeno premiado em Cannes. O filme era longuíssimo, seis horas de duração. Ele estava com um livro enorme debaixo do braço. Quando a sessão começou retirou uma pequena lanterna do bolso para ler o livro. Ficou assim durante todo o filme.
No saguão me disse Poeta você tem que ler este livro, é do João Ubaldo, Viva o povo Brasileiro. E como possuía detalhes a respeito de tudo, continuou. Poeta os originais desse livro tinham 6.750 gramas, pesados na balança da bodega de Valter na ilha de Itaparica. E olha que o João disse que o Valter ficou famoso por não ser rigoroso com o peso da sua balança. Também me falou que o livro foi escrito porque o editor do João brincou dizendo que os escritores brasileiros só escreviam livros pequenos, mirrados, de birra João fez Viva o povo brasileiro. Pouco tempo depois me presenteou o livro com a dedicatória Poeta, depois de ler este livro, você vai querer escrever narrativas. É pena que ele não esperou tempo suficiente para ver sua previsão concretizada. Partiu me deixando com as nozes que eu teimo em quebrar para ver o que há dentro. Oxalá elas tenham algum sabor.

domingo, dezembro 13, 2009

Canção de bem-me-quer II

p/ Gerana Damulakis que instigou

Amanheceste em mim
como um lírio atormentado
cheia de renúncia ao querer

eu fiquei tecendo quimeras
implorando a luz do arrebol

até que viesses sem pressa
despir o silêncio desse agora


*retirado de mileumpoemas.blogspot.com

quarta-feira, dezembro 09, 2009

AUTO-CONTRASTE II

O rio consome a água
Como a veia consome o sangue
Como o sertão consome a enxada
Como a vida consome o dia

A resma consome a folha
Como o enxame consome a abelha
Como a tribo consome o índio
Como o cardume consome o peixe

O vento consome o sopro
Como a ilha consome o mar
Como o fogo consome a água
Como o amor consome a dor

A palavra consome o verso
Como a rima consome a estrofe
Como a língua consome o verbo
Como o espírito consome o corpo

Pouco a pouco
Pouco a pouco

* retirado de mileumpoemas.blogspot.com

segunda-feira, novembro 23, 2009

as escolhas que eu me fiz e as escolhas que me fizeram

Minha memória e alguns filmes

O primeiro que me vem é A Comilança, acho que de Mário Monicelli, que tem, claro, Marcelo Mastroianni e, também, Ugo Tognazzi. Uma mistura voraz de gastronomia e sexo com um desfecho surpreendente. Afogando em Números de Peter Greenaway, engraçado não lembro exatamente o roteiro, virou uma obsessão para tentar localizar a numeração de cada cena. Cinema e jogo de xadrez. Ana e os Lobos de Carlos Saura com Geraldine Chaplin, inocência e luxúria. Visualizo o rosto da protagonista, agora, delicadamente.

Repulsa ao Sexo (Polanski) traz uma Catherine Deneuve absolutamente linda e a cena em que brotam mãos das paredes está eternizada. Zabriskie Point, de Antonionni, mistura a música do Pink Floyd com explosões em câmera lenta, corpos nus rolando nas dunas, pura psicodelia. Com muito custo, de tempo, um amigo me conseguiu uma cópia na internet e eu pude revê-lo. Mimi, o metalúrgico de Lina Wertmüller, com Giancarlo Gianinni, um puta ator que está impagável tentando conquistar uma matrona para se vingar da traição da mulher. Acho que é isso, e tudo o mais subjacente que a comédia sombreia do conteúdo político.
Dois filmes em que eu vejo similitudes: Kagemusha (Kurosawa) e O enigma de Kasper Hauser (Herzog). Dois protagonistas tentando encontrar a própria identidade, e dois mestres do cinema que abusam da fotografia, um mais sombrio o outro com paisagens abertas, mas ambos com desertos existenciais medonhos.
Outro filme que trilha a busca existencial através da memória é Amor, estranho amor (Walter Hugo Khoury). Ficou desvirtuado pela presença de uma futura celebridade, que na verdade era apenas acessório, adereço, na história. Tem o ator quase alterego do Khoury que eu não lembro o nome, interpretando o narrador-protagonista. Filme de nostalgia, daqueles que dão saudade do que fomos nós.
Para concluir essa pequena reminiscência outros dois filmes encantadores. Lições de vida, a primeira história de Contos de Nova York dirigida por Scorcese, com o gigante Nick Nolte, perfeito na interpretação do artista plástico, e a despudoramente sedutora Rosana Arquete. É uma aula de como fazer cinema com abusos magistrais de câmera lenta, fade-out, fade-in e uma trilha sonora de arrepiar que vai de Like Rolling Stone (Dylan), solo de violão de Django Reinhardt e um Pavarotti avassalador. Tenho uma cópia do filme, uma cópia da trilha sonora e sempre que possível insisto para os amigos assistirem. O desejo por uma mulher que nos consome, e pela qual nós pobres homens mortais enfrentamos o inferno com vigor e o paraíso com fervor.
E por fim, mais desejo, mais mulheres e atrizes duplicadas. Evidente que só podia partir de Buñuel e o seu Obscuro objeto do desejo. Assisti a duas sessões contínuas na primeira vez, queria ter certeza do que estava vendo. Depois vieram as elucubrações sobre a presença de duas atrizes para interpretar a mesma personagem, por sinal ambas lindíssimas. Fizemos até um grupo de estudo para dissecar a obra do Buñuel. E eis que depois de algum tempo ele revela que simplesmente já tinha gravado parte do filme com uma atriz e houve um desentendimento. Aí ele contratou outra e continuou o filme. Eu não acredito nem a pau nessa história do diretor. Para mim ele criou outra ficção, outro filme ao engendrar esse novo enredo. Vocês me entendem, não.

sexta-feira, novembro 20, 2009

madrigal de amantes

inspirado em poema da Nina Rizzi

quando finda o tempo de nós dois
dez mil sóis se ninam em orgasmo
fecundam perguntas sem respostas
fica esse visgo na pele do teu pasto

quando finda o tempo de nós dois
formam laços agridoces na solidão
o céu desaba jasmins domesticados
e tudo plasma o espanto do agora


*retirado de mileumpoemas.blogspot.com

quarta-feira, novembro 11, 2009

Mosaico

colei migalhas na minha língua
à espera do vaticínio do beijo
que talvez viesse,

colei migalhas nestas palavras
à espera do vaticínio do verso
que talvez alumbrasse,

colei também esta paisagem branca
como fundo de um retrato atônito
que talvez cegasse.

quinta-feira, novembro 05, 2009

canção de enganar o vento II *

eu bem te disse que havia desvios
e nem todo caminho leva ou conduz
que as flores na ribanceira pendem
se ruflam e se riem daquele abismo

eu bem te disse pequenas verdades
tolas todas em formato de petiscos
embrulhadas em papel fino e barato
feito sortilégios de alguma cigana

eu bem te disse e fiz disso oferenda
como esse corpo vazio que se esquece
esse destino sem rotas, sem bússola
o tropego desafio de querer resistir

eu te disse quase tudo que já sabias
e lancei ancora neste terno desterro
valseando em velas e quilhas e portos
sendo relâmpago inútil do que é pouco

* retirado de mileumpoemas.blogspot.com

domingo, outubro 25, 2009

Outro fadinho

talvez não calhe a dor
arranhando o silêncio
no cenário desta tarde

bem eu sei, bem eu sei
sei pois que não calha
soluços a qualquer hora

mas cá estou eu, eu só
ruminando os girassóis
neste porto vário de ócio

segunda-feira, outubro 19, 2009

poema bem antigo

não digas que já é tarde
nem que a sombra da noite
domina a festa dos olhos

quero apenas a inútil certeza
de que ainda habita
o teu ventre cálido
o espanto dessa paixão

quarta-feira, outubro 14, 2009

a outra imagem, a do espelho

pelo presente
instrumento
particular
de decisão
indefiro o
poema e sigo
só com a vida

sábado, outubro 10, 2009

sexta-feira, outubro 09, 2009

Poema do destino

Daqui uns dias me zango
E nada mais escrevo.

Mas antes, rabiscarei
de tédio alguma estrela

quinta-feira, outubro 01, 2009

Poema de tenra idade

Via a vulva sempre viva
Pulsando languida a língua
Sem esforço nos desvãos

quarta-feira, setembro 30, 2009

Jardinagem secreta

o passo instigava
por entre as vastas folhas
o reticente caminho de gerânios

terça-feira, setembro 29, 2009

Solitude in blue

Vejo nos olhos do amanhã:
a saudade imersa das pernas
o corrupio amargo das horas
a fria solidão desse silêncio.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Poema de qualquer idade

Tudo o que não mais cabia
Hoje é falta, é ausência:
bem querer sem serventia