domingo, outubro 25, 2009

Outro fadinho

talvez não calhe a dor
arranhando o silêncio
no cenário desta tarde

bem eu sei, bem eu sei
sei pois que não calha
soluços a qualquer hora

mas cá estou eu, eu só
ruminando os girassóis
neste porto vário de ócio

segunda-feira, outubro 19, 2009

poema bem antigo

não digas que já é tarde
nem que a sombra da noite
domina a festa dos olhos

quero apenas a inútil certeza
de que ainda habita
o teu ventre cálido
o espanto dessa paixão

quarta-feira, outubro 14, 2009

a outra imagem, a do espelho

pelo presente
instrumento
particular
de decisão
indefiro o
poema e sigo
só com a vida

sábado, outubro 10, 2009

sexta-feira, outubro 09, 2009

Poema do destino

Daqui uns dias me zango
E nada mais escrevo.

Mas antes, rabiscarei
de tédio alguma estrela

quinta-feira, outubro 01, 2009

Poema de tenra idade

Via a vulva sempre viva
Pulsando languida a língua
Sem esforço nos desvãos

quarta-feira, setembro 30, 2009

Jardinagem secreta

o passo instigava
por entre as vastas folhas
o reticente caminho de gerânios

terça-feira, setembro 29, 2009

Solitude in blue

Vejo nos olhos do amanhã:
a saudade imersa das pernas
o corrupio amargo das horas
a fria solidão desse silêncio.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Poema de qualquer idade

Tudo o que não mais cabia
Hoje é falta, é ausência:
bem querer sem serventia

domingo, setembro 27, 2009

hay kay

no outono que havia
jazia eu sem agonias
imerso em algaravia

sexta-feira, setembro 25, 2009

o seio da mina que mora em mim

no meio da praça tinha um caminho
tinha um caminho no meio da praça

que eu percorria tonto enquanto rias
que rias tonta enquanto eu percorria

no meio do caminho tinha o teu olhar
tinha o olhar no meio do teu caminho

nesta minha vida de passos tão gastos
lembro que não houve a conseqüência

de caminhos, de olhares, nem de sorrisos
restou esta louca vontade de escrever, só

quinta-feira, setembro 24, 2009

The koln concert

Tenho manias de cantar silêncios
Entre queixumes e querências
E muitas tolas inconseqüências

Não era sempre assim, eu sei
Mas algo prendeu-me no visgo
De paragens, portos e navios

E assim fico eu, rimando o vazio
Lendo as inconstâncias de um olhar
ouvindo um mantra de Keith Jarrett

terça-feira, setembro 15, 2009

O rio e o poema do rio

Era de peixe o desejo
Em escamas encarnado
Em tua lívida paisagem
Embevecida na anágua

segunda-feira, setembro 14, 2009

uma outra prosa (outra construção)

percebo o que havia
- em flor - no teu corpo
néctar, pólen, semente

seja como for
também havia poesia
disso a língua não sabia

uma outra prosa

percebo o que havia no teu corpo
néctar, pólen, semente
mas também havia poesia
disso a língua não sabia

quinta-feira, setembro 10, 2009

todos os dias, o dia

não, não estou triste
estou sozinho e resignado
repito:
não estou triste

há pouco floresceu
mais um pacote de dúvidas
estou vivo

acho que é suficiente

sábado, setembro 05, 2009

Em cada post o silêncio

Só o silêncio havia como coisa concreta, o resto era ilusão.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Canto Peregrino

II

à sombra do regato
descanso as malas
e
os sapatos

quarta-feira, agosto 26, 2009

AS ESCOLHAS QUE EU ME FIZ E AS ESCOLHAS QUE ME FIZERAM

"O Livro das Ignorãças"

VI
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

Manoel de Barros

AS ESCOLHAS QUE EU ME FIZ E AS ESCOLHAS QUE ME FIZERAM

Funeral Blues
W.H. Auden
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods
For nothing now can ever come to any good.