"O Livro das Ignorãças"
VI
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.
Manoel de Barros
quarta-feira, agosto 26, 2009
AS ESCOLHAS QUE EU ME FIZ E AS ESCOLHAS QUE ME FIZERAM
Funeral Blues
W.H. Auden
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.
The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods
For nothing now can ever come to any good.
W.H. Auden
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.
The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods
For nothing now can ever come to any good.
sexta-feira, agosto 21, 2009
terça-feira, agosto 11, 2009
AS ESCOLHAS QUE EU ME FIZ E AS ESCOLHAS QUE ME FIZERAM
CONCERTO P/ FLAUTA DE CANUDO DE MAMÃO
Vou cativar um beija-flor.
E sairemos por aí:
ele faz poesias, eu vôo.
Antonio Brasileiro
Vou cativar um beija-flor.
E sairemos por aí:
ele faz poesias, eu vôo.
Antonio Brasileiro
sexta-feira, julho 31, 2009
terça-feira, julho 21, 2009
AS ESCOLHAS QUE EU ME FIZ E AS ESCOLHAS QUE ME FIZERAM
VEM!
Não me deixa sozinho,
catavento à mercê de um vento frio.
Vem
encher com teu corpo de moça
o vazio, o imenso vazio...
Vem
apagar toda esta dança de luzes
luzes loucas, loucamente piscando
na cidade escura dos meus pensamentos!
Vem, depressa, vem
abrigar o meu impulso de fim
como um rei entre as tuas coxas
ou trazer nos lábios o esquecimento
das coisas que eu desconheço
mas são brasas
aprisionadas dentro do meu cérebro.
Vem
empurrar com a carícia de tuas mãos
esta noite estranha que cresce, que cresce...
Moacyr Félix
Não me deixa sozinho,
catavento à mercê de um vento frio.
Vem
encher com teu corpo de moça
o vazio, o imenso vazio...
Vem
apagar toda esta dança de luzes
luzes loucas, loucamente piscando
na cidade escura dos meus pensamentos!
Vem, depressa, vem
abrigar o meu impulso de fim
como um rei entre as tuas coxas
ou trazer nos lábios o esquecimento
das coisas que eu desconheço
mas são brasas
aprisionadas dentro do meu cérebro.
Vem
empurrar com a carícia de tuas mãos
esta noite estranha que cresce, que cresce...
Moacyr Félix
sexta-feira, julho 17, 2009
minueto
havia teu nome tão feliz
em paz com as cascatas
de palavras
o assovio nesta
ou naquela curva
de repente
árias inquietas e insones
bulício de asas atonitas
e fiquei com esse teu nome
marcando-me o centro
feito uma flecha atravessada
esta dor que nunca passa
em paz com as cascatas
de palavras
o assovio nesta
ou naquela curva
de repente
árias inquietas e insones
bulício de asas atonitas
e fiquei com esse teu nome
marcando-me o centro
feito uma flecha atravessada
esta dor que nunca passa
quinta-feira, julho 16, 2009
AS ESCOLHAS QUE EU ME FIZ E AS ESCOLHAS QUE ME FIZERAM
Abdicação
Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços
Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.
Fernando Pessoa
Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços
Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.
Fernando Pessoa
sexta-feira, julho 03, 2009
AS ESCOLHAS QUE EU ME FIZ E AS ESCOLHAS QUE ME FIZERAM
ESCOLHAS LITERÁRIAS
Murilo Rubião, Dalton Trevisan e Ricardo Ramos. Três contistas e três outsiders. A literatura como exercício de respiração, a qualquer momento o colapso. Quando o fôlego começar a faltar, continue.
Circuito Fechado
Ricardo Ramos
Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, telefone, agenda, copo com lápis, caneta, blocos de notas, espátula, pastas, caixa de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetos de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo. xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapos. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras, cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.
A LUA
Murilo Rubião
Nem luz, nem luar. O céu e as ruas permaneciam escuras, prejudicando de certo modo, os meus desígnios. Sólida, porém, era a minha paciência e eu nada fazia senão vigiar os passos de Cris. Todas as noites, após o jantar, esperava-o encostado ao muro da sua residência, despreocupado em esconder-me ou tomar qualquer precaução para fugir aos seus olhos, pois nunca se inquietava com o que poderia estar se passando em torno dele. A profunda escuridão que nos cercava e a rapidez com que, ao sair de casa, ganhava o passeio, jamais me permitiram ver-lhe a fisionomia. Resoluto, avançava pela calçada, como se tivesse um lugar certo para ir. Pouco a pouco, os seus movimentos tornavam-se lentos e indecisos, desmentindo-lhe a determinação anterior. Acompanhava-o com dificuldade. Sombras maliciosas e traiçoeiras vinham ao meu encontro, forçando-me a enervantes recuos. O invisível andava pelas minhas mãos, enquanto Cris, sereno e desembaraçado, locomovia-se facilmente. Não parasse ele repetidas vezes, impossível seria a minha tarefa. Quando vislumbrava seu vulto, depois de tê-lo perdido por momentos, encontrava-o agachado, enchendo os bolsos internos com coisas impossíveis de serem distinguidas de longe.
Bem monótono era segui-lo sempre pelos mesmos caminhos. Principalmente por não o ver entrar em algum edifício, conversar com amigos ou mulheres. Nem ao menos cumprimentava um conhecido.
Na volta, de madrugada, Cris ia retirando de dentro do paletó os objetos que colhera na ida e, um a um, jogava-os fora. Tinha a impressão de que os examinara com ternura antes de livrar-se deles.
Alguns meses decorridos, os seus passeios obedeciam ainda a uma regularidade constante. Sim, invariável era o trajeto seguido por Cris, não obstante a aparente falta de rumo com que caminhava. Partindo da sua casa, descia dez quarteirões em frente, virando na segunda avenida do percurso. Dali andava pequeno trecho, enveredando imediatamente por uma rua tortuosa e estreita. Quinze minutos depois atingia a zona suburbana da cidade, onde os prédios eram raros e sujos. Somente estacava ao deparar uma casa de armarinho, em cuja vitrina, forrada de papel crepom, encontrava-se permanentemente exposta uma pobre boneca. Tinha os olhos azuis, um sorriso de massa.
Uma noite - já me acostumara ao negro da noite - constatei, ligeiramente surpreendido, que os seus passos não nos conduziriam pelo itinerário da véspera. (Havia algo que ainda não amadurecera o suficiente para sofrer tão súbita ruptura.)
Nesse dia, o andar firme, seguiu em linha reta, evitando as ruas transversais, pelas quais passava sem se deter. Atravessou o centro urbano, deixou para trás a avenida em que se localizava o comércio atacadista. Apenas se demorou uma vez - assim mesmo momentaneamente - defronte a um cinema, no qual os meninos de outros tempos assistiam filmes em série. Fez menção de comprar entrada, o que deveras me alarmou. Contudo, sua indecisão foi breve e prosseguiu a caminhada. Enfiou-se pela rua do meretrício, parando a espaços, diante dos portões, espiando pelas janelas, quase todas muito próximas do solo.
Em frente a uma casa baixa, a única da cidade que aparecia iluminada, estacionou hesitante. Tive a intuição de que aquele seria o instante preciso, pois se Cris retrocedesse, não lograria outra oportunidade. Corri para seu lado e, sacando do punhal, mergulhei-o nas suas costas. Sem um gemido e o mais leve estertor, caiu no chão. Do seu corpo magro saiu a lua. Uma meretriz que passava, talvez movida por impensado gesto, agarrou-a nas mãos, enquanto uma garoa de prata cobria as roupas do morto. A mulher, vendo o que sustinha entre os dedos, se desfez num pranto convulsivo. Abandonando a lua, que foi varando o espaço, ela escondeu a face no meu ombro. Afastei-a de mim, e, abaixando-me, contemplei o rosto de Cris. Um rosto infantil, os olhos azuis. O sorriso de massa.
111 AIS
Dalton Trevisan
“- Dois amigos tinham bronca de um traficante e me pediram o revólver emprestado pra apagar o cara. Tudo bem eu disse. Desde que dê o primeiro tiro. E dei, pimba! no olho azul. Ou era verde?”
Murilo Rubião, Dalton Trevisan e Ricardo Ramos. Três contistas e três outsiders. A literatura como exercício de respiração, a qualquer momento o colapso. Quando o fôlego começar a faltar, continue.
Circuito Fechado
Ricardo Ramos
Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, telefone, agenda, copo com lápis, caneta, blocos de notas, espátula, pastas, caixa de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetos de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo. xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapos. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras, cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.
A LUA
Murilo Rubião
Nem luz, nem luar. O céu e as ruas permaneciam escuras, prejudicando de certo modo, os meus desígnios. Sólida, porém, era a minha paciência e eu nada fazia senão vigiar os passos de Cris. Todas as noites, após o jantar, esperava-o encostado ao muro da sua residência, despreocupado em esconder-me ou tomar qualquer precaução para fugir aos seus olhos, pois nunca se inquietava com o que poderia estar se passando em torno dele. A profunda escuridão que nos cercava e a rapidez com que, ao sair de casa, ganhava o passeio, jamais me permitiram ver-lhe a fisionomia. Resoluto, avançava pela calçada, como se tivesse um lugar certo para ir. Pouco a pouco, os seus movimentos tornavam-se lentos e indecisos, desmentindo-lhe a determinação anterior. Acompanhava-o com dificuldade. Sombras maliciosas e traiçoeiras vinham ao meu encontro, forçando-me a enervantes recuos. O invisível andava pelas minhas mãos, enquanto Cris, sereno e desembaraçado, locomovia-se facilmente. Não parasse ele repetidas vezes, impossível seria a minha tarefa. Quando vislumbrava seu vulto, depois de tê-lo perdido por momentos, encontrava-o agachado, enchendo os bolsos internos com coisas impossíveis de serem distinguidas de longe.
Bem monótono era segui-lo sempre pelos mesmos caminhos. Principalmente por não o ver entrar em algum edifício, conversar com amigos ou mulheres. Nem ao menos cumprimentava um conhecido.
Na volta, de madrugada, Cris ia retirando de dentro do paletó os objetos que colhera na ida e, um a um, jogava-os fora. Tinha a impressão de que os examinara com ternura antes de livrar-se deles.
Alguns meses decorridos, os seus passeios obedeciam ainda a uma regularidade constante. Sim, invariável era o trajeto seguido por Cris, não obstante a aparente falta de rumo com que caminhava. Partindo da sua casa, descia dez quarteirões em frente, virando na segunda avenida do percurso. Dali andava pequeno trecho, enveredando imediatamente por uma rua tortuosa e estreita. Quinze minutos depois atingia a zona suburbana da cidade, onde os prédios eram raros e sujos. Somente estacava ao deparar uma casa de armarinho, em cuja vitrina, forrada de papel crepom, encontrava-se permanentemente exposta uma pobre boneca. Tinha os olhos azuis, um sorriso de massa.
Uma noite - já me acostumara ao negro da noite - constatei, ligeiramente surpreendido, que os seus passos não nos conduziriam pelo itinerário da véspera. (Havia algo que ainda não amadurecera o suficiente para sofrer tão súbita ruptura.)
Nesse dia, o andar firme, seguiu em linha reta, evitando as ruas transversais, pelas quais passava sem se deter. Atravessou o centro urbano, deixou para trás a avenida em que se localizava o comércio atacadista. Apenas se demorou uma vez - assim mesmo momentaneamente - defronte a um cinema, no qual os meninos de outros tempos assistiam filmes em série. Fez menção de comprar entrada, o que deveras me alarmou. Contudo, sua indecisão foi breve e prosseguiu a caminhada. Enfiou-se pela rua do meretrício, parando a espaços, diante dos portões, espiando pelas janelas, quase todas muito próximas do solo.
Em frente a uma casa baixa, a única da cidade que aparecia iluminada, estacionou hesitante. Tive a intuição de que aquele seria o instante preciso, pois se Cris retrocedesse, não lograria outra oportunidade. Corri para seu lado e, sacando do punhal, mergulhei-o nas suas costas. Sem um gemido e o mais leve estertor, caiu no chão. Do seu corpo magro saiu a lua. Uma meretriz que passava, talvez movida por impensado gesto, agarrou-a nas mãos, enquanto uma garoa de prata cobria as roupas do morto. A mulher, vendo o que sustinha entre os dedos, se desfez num pranto convulsivo. Abandonando a lua, que foi varando o espaço, ela escondeu a face no meu ombro. Afastei-a de mim, e, abaixando-me, contemplei o rosto de Cris. Um rosto infantil, os olhos azuis. O sorriso de massa.
111 AIS
Dalton Trevisan
“- Dois amigos tinham bronca de um traficante e me pediram o revólver emprestado pra apagar o cara. Tudo bem eu disse. Desde que dê o primeiro tiro. E dei, pimba! no olho azul. Ou era verde?”
sexta-feira, junho 19, 2009
didática para amantes II
Gosto de ver tua face
Quando despertas
lençóis entre as pernas
e recolhes o disfarce
de deusa incendiária
e o ingênuo riso brota
então brilham astros
mas nada disso importa
a tua face é que denota
Quando despertas
lençóis entre as pernas
e recolhes o disfarce
de deusa incendiária
e o ingênuo riso brota
então brilham astros
mas nada disso importa
a tua face é que denota
segunda-feira, junho 08, 2009
terça-feira, junho 02, 2009
Eu e o Q do Sertão
o Q do Sertão 30 - bloco 03
Vídeo enviado por oqdosertao
Programa "o Q do Sertão" nº 30, exibido no mês de maio/2009, tem por objetivo difundir a cultura sertaneja, abrindo espaço para assuntos regionais e nacionais de interesse local. Revela as faces culturais e a pluralidade artística que transformam a realidade social. Incentiva o protagonismo local e estimular o interesse do telespectador incentivando a reflexão para um despertar da consciência de identidade cultural.
domingo, maio 31, 2009
canção de encantar o filho
dá-me (pai)
a tua graça nessa hora
em que a infinda aurora
ameaça desabar
dá-me (pai)
a palavra certa
e a benção desse
silêncio inquieto
dá-me (pai)
a mão e ousadia de
pregar o haver entre nós
e a chama no desvario
dá-me (pai)
a paz sobretudo
como provisório símbolo,
afinal
a tua graça nessa hora
em que a infinda aurora
ameaça desabar
dá-me (pai)
a palavra certa
e a benção desse
silêncio inquieto
dá-me (pai)
a mão e ousadia de
pregar o haver entre nós
e a chama no desvario
dá-me (pai)
a paz sobretudo
como provisório símbolo,
afinal
sexta-feira, maio 22, 2009
prosa rasa para violino e oboé
Ela não lembrou de dizer adeus quando o dia partiu no meio da manhã. Eu não fiquei triste, eu simplesmente fiquei, absolutamente.
segunda-feira, maio 04, 2009
poemas de centauro
IX
e tanta coisa era
ao mesmo tempo
- nada -
o espelho
refletindo
o deserto
o meu rosto
espraiado
na planície
e o claro enigma
da luz: decerto
e tanta coisa era
ao mesmo tempo
- nada -
o espelho
refletindo
o deserto
o meu rosto
espraiado
na planície
e o claro enigma
da luz: decerto
terça-feira, fevereiro 03, 2009
poemas de centauro VI
Perdoai a singela aurora
Que rouba dos olhos
A lágrima incandescente
Sinto algo de sal
Na idade reticente
Desse espírito tosco
Que em mim habita
essas mornas paisagens
perdoai as palavras soltas
enquanto rumino aragens
e pastoreio com (e)terna calma
o silêncio na quadra de um rio
Que rouba dos olhos
A lágrima incandescente
Sinto algo de sal
Na idade reticente
Desse espírito tosco
Que em mim habita
essas mornas paisagens
perdoai as palavras soltas
enquanto rumino aragens
e pastoreio com (e)terna calma
o silêncio na quadra de um rio
quinta-feira, janeiro 15, 2009
Imagens do lançamento de "O Ulisses no supermercado"
Estas são imagens do lançamento do livro de contos "O Ulisses no supermercado", selecionado pelo Prêmio CDL de Literatura, no último dia 7. Quem se interessar em adquirir o exemplar me contate pelo e-mail: dumassis@oi.com.br.
sábado, dezembro 13, 2008
poema de desengano II
A tristeza que hoje impera
De este cantar tem sido
Alvoroço de naus em terra
Murmúrio de estar infindo
Neste quadro que regressa
Aurora de lúcidas esperas
Fico eu a vagar impreciso
Avatar de impossíveis eras
De este cantar tem sido
Alvoroço de naus em terra
Murmúrio de estar infindo
Neste quadro que regressa
Aurora de lúcidas esperas
Fico eu a vagar impreciso
Avatar de impossíveis eras
sexta-feira, dezembro 12, 2008
poema de desengano
acostumei-me as poucas coisas:
a vida neste vagar,
as frases soltas,
o rumor e o silêncio,
e esta calma solidão
que comigo dorme agarrada.
a vida neste vagar,
as frases soltas,
o rumor e o silêncio,
e esta calma solidão
que comigo dorme agarrada.
segunda-feira, dezembro 08, 2008
poema de segunda-feira
Não é sem assombro
que desperto enluarado
invadido por reticências
de parágrafos inteiros
na solidão da página nua
que desperto enluarado
invadido por reticências
de parágrafos inteiros
na solidão da página nua
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